quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Ponto de Vista

A praça da cidadezinha sempre fervilhava aos finais de semana. Não dispondo de nenhuma outra atração realmente interessante, as famílias optavam por se encontrar ali para um sorvete ou um preguiçoso banho de sol após o almoço. 

As velhas senhoras de rosto rubro e rechonchudos acenavam para as vizinhas, que logo se juntavam e começavam a tricotar, palavras e fios. Os fios, muito delicados, formavam centros de mesa e echarpes muito elegantes. Já as palavras careciam de certo acabamento.

Naquele domingo, porém, algo chamava a atenção dos moradores. Várias pessoas estavam se amontoando em frente ao campinho de futebol. Sem saber do que se tratava uma senhora, carregando a netinha pelas mãos, se aproximou. Guiada pelos olhares de reprovação dos colegas achou a fonte de tanto interesse: era uma mulher sentada no chão. Aquele comportamento não seria de todo estranho, mas uma senhora magrela ao lado fez questão de comentar, em não tão baixo tom:

- Está vendo esta perna? Quase toda pra fora. Se fosse filha minha não saía de casa com estas roupas. 

A senhora com a netinha acenou a cabeça mas nada falou. O silêncio não durou muito. 

- Está vendo menininha? Não envergonhe a sua família desta forma quando crescer. Use isso de exemplo e jamais vista roupas como essas. - Continuou.

A menininha, como se notasse a interlocutora pela primeira vez, olhou para cima, seus grandes olhos mostravam confusão. 

- Que roupas?

A velha bufou com impaciência. - As roupas desta mulher, oras! A que todos aqui estão olhando abismados. 

A confusão dos olhos não dispersou, pelo contrário, a menina de olhos grandes parecia ainda mais perdida. 

- Mas as pessoas não estão paradas aqui olhando para aquele pássaro gigante e colorido que está no braço dela?

A pergunta trouxe um pesado silêncio junto a ela. Algumas pessoas, incluindo a velha, não sabiam do que ela estava falando e então olharam novamente para a mulher sentada no chão. Um murmúrio de espanto se seguiu. Parecia que uma cena completamente nova surgira em frente aos seus olhos. 

A moça sorriu.