quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Domingo à noite

O pior não é a segunda-feira. A manhã de segunda-feira já é como se fosse o início de uma corrida, na qual não podemos voltar atrás. Você simplesmente corre, não há muito o que pensar.

Mas o domingo à noite...

O domingo á noite é quando você olha para trás e vê que passou os últimos dois dias fazendo o que você gostaria de fazer o resto da vida. E poderia ser tudo o que gostaria de fazer se não fossem apenas dois dias. Se fossem noites, semanas, meses... anos!

Mas chegou o fim do domingo, e no dia seguinte tudo voltará a ser como antes: trabalho, horários, distâncias...

No domingo à noite a corrida ainda não começou, e ainda é possível voltar atrás. É possível mudar, e não correr no dia seguinte. Enquanto não se dorme, tudo é possível. Mas uma vez amanhecido na segunda-feira... na corrida já está.

É no domingo à noite que entro nesse desespero de não saber até quando vou temer dormir. Porque o acordar é fácil, é conformado com o trabalho, os horários e as distâncias. Às vezes com alguma nuance de pesar, mas conformado. O dormir não.

O dormir antevê o trabalho imperfeito e insatisfatório, sempre querendo fazer uma loucura de mudar e fugir para sempre. Para outra ocupação a que se desse o nome de trabalho e realmente fizesse algum bem ao mundo. Mas ainda sem saber qual era essa ocupação.

O dormir relembra os horários que impedem de se fazer coisas e caprichos eventuais, daqueles que tornam a semana algo que realmente vale a pena. Não posso, estarei trabalhando. Não pude, tive que sair mais tarde...

Principalmente, o dormir vê as distâncias que se abrem todos os dias, até que a semana acabe novamente. A distância de nós mesmos, que não conseguimos ficar a sós ou nos dedicarmos a nós próprios. A distância dos nossos amores, com quem nunca falamos o suficiente, com quem sempre falta mais tempo juntos.

É no domingo à noite, esse momento dramático em que tudo isso me vem à cabeça, que eu ainda tenho que lhe dizer adeus. E eu fico imaginando se tudo isso não seria mais fácil se eu não precisasse dormir sempre só, e pudesse passar essas noites de virada (e todas as outras) ao seu lado. Se eu não precisasse me despedir toda vez. Se não houvesse noites de domingo...