quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Luz

Ele caminhava por entre as vigas caídas e o chão batido. Viajava há dias com apenas uma mochila nas costas e um mapa na mão. O mapa, na verdade, não levava a lugar algum. Não havia trilhas pontilhadas, marcações entusiásticas ou tesouros marcados por um x vermelho. Caminhava sem rumo, deixando-se guiar pela mente cheia, que viajava muito mais rápido do que ele, as vezes deixando-o para trás. 

Estava cansado e há dias não conseguia nada além dos biscoitos secos e da água que usava para empurrá-los goela abaixo. Seu corpo doía, precisava dormir. Foi com grata surpresa, em meio a seus lamentos, que distinguiu a silhueta de uma vilazinha a sua frente. Finalmente!

Caminhou sem pressa por suas ruelas e viu algumas casas fechadas, mas não viu nem ouviu ninguém. Nenhum poste na rua, nenhuma luz indicando que existia alguém ali. Continuou andando até o centro onde havia uma praça larga e vazia. Desanimado, arrastou-se até o banco mais próximo, largou a mochila no chão e se acomodou, arqueando o corpo sobre o joelho. 

Para onde iria agora? Não sabia se valia a pena ir adiante. Ponderou entre voltar para o conforto de sua casa e continuar a jornada. Na verdade não era aventureiro, nunca fora. Não sabia por que em um ímpeto louco saíra desbravando o desconhecido. Talvez precisasse de novos ares. Talvez precisasse fugir.

Estava tão compenetrado mergulhando em seus anseios que demorou para perceber que não estava completamente sozinho ali. Um pequeno objeto velho e enferrujado dividia o banco com ele. Com receio, pegou-o entre os dedos e olhou mais de perto. Era um pequeno lampião de ferro retorcido e vitrais coloridos. Olhou novamente para o lado e reparou em um pequeno bilhete que antes estava escondido embaixo do objeto. Um pequeno papel amarelado com duas palavras escritas em uma caligrafia bonita:

“Para enxergar”. 

Encarou o bilhete por alguns segundos e achou curiosa a escolha das palavras. Vasculhou o bolso a procura de um fósforo e pensou “vamos enxergar então”. Mas parou. Sentiu medo e não sabia por que. Era medo de enxergar? Talvez. Não sabia se iria ver algo novo ou se iria gostar. O que poderia enxergar? Um rumo? Ou descobrir que todo seu caminho até agora não o levaria a lugar algum? Por que estava tão preocupado com isso?

Antes que as perguntas e a incerteza o sufocassem ele levou o fósforo aceso até o pavio. Uma pequena explosão de luz saiu do objeto, iluminando apenas a palma de sua mão e alguns centímetros a sua frente. Por um momento ficou tenso esperando por algo diferente. Nada aconteceu. Não sabia se estava frustrado ou aliviado. 

Passou alguns minutos encarando os vitrais e a forma como o fogo desenhava as sombras neles enquanto sentia sua mão aquecer. Não percebeu exatamente quando, mas um sentimento de conforto e segurança invadiu seu peito. A enxurrada de pensamentos se esvaiu. Colocou a mochila nas costas e resolveu seguir em frente. Sua mente estava tranquila e, repentinamente, pequenos tesouros começaram a aparecer em seu mapa.