terça-feira, 22 de outubro de 2013

Mergulho

Margeada por um rio de águas cristalinas, a cidade do Apego era bela e imutável. Todos que nela nasciam, nela permaneciam. Brincavam entre as árvores sempre carregadas de folhas verdes e comiam os frutos grandes e suculentos que delas pendiam.  A noite voltavam para suas casas onde tinham comida sempre quente e o aconchego dos familiares. Durante os dias todos tinham trabalho e nada tinham a reclamar. Era sempre verão e o vento sempre soprava fresco e acolhedor.    

Tudo era belo, calmo e previsível. Não havia mudanças. Nada ali era novo nem velho. Tudo permanecia igual, em uma eterna e esperada rotina. Nada era desagradável, nada surpreendia.  

Aos finais de tarde todos se reuniam a beira do rio para conversar e observar o pôr-do-sol.

- Somos tão privilegiados por morarmos aqui. – Um deles falava enquanto tragava um cachimbo.

- Com certeza. Lugar melhor não há.

Enquanto os senhores descreviam as inúmeras qualidades e vantagens de se viver em um lugar como aquele, como faziam todos os dias, um garotinho de oito anos apenas fitava a outra margem do rio. Sua expressão era pensativa.

- E o que tem do outro lado? – Perguntou.

- Não sei. – Respondeu um dos senhores. – Não preciso saber o que existe lá uma vez que aqui nada me falta.

- Mas nunca ninguém foi? E se existirem dragões e bruxos do outro lado?

- Não sei o que existe lá garoto e nem faço questão de ir atrás para ver. Podem ter dragões que cospem ouro que eu não vou me interessar. – Retrucou sem paciência, mas se conteve ao lembrar-se de algo. – Entretanto... teve um maluco que cruzou até a outra margem sim.

- E o que ele viu?

- Não sei. Ele nunca mais voltou. Nadou até lá, gritou meia dúzia de palavras e foi-se embora. Deve ter morrido de desgosto.

- E o que ele disse?

- Que a gente tinha medo de se molhar. Ridículo, não?