quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Por uma arte sem vagas

Ela provocava admiração e inspiração. Como a gente espera de um bom professor. E provocava os alunos, como deve aquele que quer fazê-los crescer.

É, inspiração no que ela ensinava. Admiração pelo que ela faz e já fez nessa vida.

Mas era um jeito estranho de se admirar alguém. Porque não queria ter uma vida como a dela. Queria muito conhecer tanto as possibilidades do corpo como ela, e movimentar-se com sua agilidade e sensibilidade. Parecia não haver passo que já não tivesse executado, ritmo que não tivesse dançado, palco onde não tivesse subido nessa cidade. No entanto...

No entanto havia algo de tristeza e insatisfação que a acompanhava ultimamente. Ela não conseguia viver de ser o que é. Mal conseguia ser bailarina profissional.

E não era por falta de talento, porque ela tinha muito, nem por falta de saber que tinha talento, porque disso sabia bem. Tampouco era por falta de tentar e buscar oportunidades, porque se arriscou em tudo o que pôde. Era por falta de vagas.

Pois mesmo na arte há vagas limitadas. Liberdade de escolha da carreira? Não. Não há espaço para todos os melhores, quanto menos para todo mundo. Viver de fazer arte? É para poucos, muito poucos... pouquíssimos! E minha professora, como fica? Quero uma vaga para ela também. É um desperdício ela estar ali, à margem.

Esse tal mundo tem essa injusta mania de querer limitar a arte. Por um bom motivo não deve ser. Mas a arte, com sua irreverência e criatividade, ainda há, um dia, de mudar esse mundo...



Enquanto isso, a professora, caminhando de um lado para o outro da sala de aula, enquanto suas alunas se alongavam ao som de uma música para piano, pensava, após olhar-se de relance no espelho: “Mais um dia de sucesso...”