terça-feira, 1 de outubro de 2013

Quando os olhos não vêem...

O garoto dos óculos fundo de garrafa e o ruivo sempre se encontravam no mesmo bar às sextas feiras. Sentavam à mesma mesa, pediam a mesma cerveja e conversavam sobre as mesmas besteiras. Eram eles a prova mais palpável de que o tédio e a rotina também podem ser divertidos.

Enquanto a conversa passava previsivelmente pelo tópico religião, um senhor de roupas simples se aproximou. Tinha uma barba grisalha e desengonçada e o olhar vivo de quem busca a vantagem em tudo que faz. "Religião!" disse ele alto ao lado da mesa. "Eu tenho um pacto com Deus!"

Os dois ficaram quietos e olharam para ele com seriedade. Após o instante de silêncio que seguiu, o ruivo fez a pergunta que ambos mentalizaram simultaneamente: "Tá, e daí?"

"E daí?" ecoou de trás de sua barba em tom jovial o homem. "E daí que ele me dá poderes!"

Suas mãos não paravam de gesticular mesmo depois que a frase já estava terminada, como se em sua cabeça o monólogo continuasse. Parecia algum tipo de tique nervoso. Os dois continuaram a fitar-lhe os olhos com a mesma expressão questionadora de antes. Vendo que o impacto não era o esperado, o homem pôs uma moeda de um real sobre a mesa. "Eu provo" disse. Pegou um copo de plástico amassado que carregava no bolso interno do casaco, o emborcou sobre a moeda e bradou a quem quisesse ouvir pelo quarteirão: "Eu farei essa moeda..." e aqui fez uma pausa dramática "desaparecer!"

Quando levantou o copo, a moeda não estava mais lá. O ruivo continuava olhando para o homem, tomado pelo tédio, enquanto o dos óculos ria às gargalhadas. O estranho senhor fez uma breve reverência satisfeita e foi ao balcão pedir uma dose de qualquer coisa.

Intrigado com a risada incessante do amigo, o ruivo decidiu por fim interrompê-la. "O que foi isso? E por que você não para de rir?"

"Ele fez um truque bem interessante mesmo. Ele pegou aquela moeda do seu bolso"

O ruivo ficou parado por um instante olhando para o colega e então levou a mão aos bolsos. "Safado!" disse antes de levantar e correr atrás do homem que não estava mais lá.