quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Vida Extra

O caos reinava nas ruas da cidade em chamas. Cada um pensava em si e em seus bens perdidos, correndo para salvar sua pele ou assaltando lojas e casas antes que o fogo consumisse tudo. Gritos se misturavam a sons de desabamento. Em cada esquina se ouvia o choro de uma criança.

Tudo isso já seria aterrorizante o suficiente sem a risada estridente e inconstante que ecoou pela cidade. Um sorriso cheio de dentes e olhos arregalados de empolgação observavam a tudo do topo da torre do relógio. A cada minuto que os enormes ponteiros completavam, aquela pessoa apertava um botão e uma nova bomba explodia num ponto aleatório, enchendo aqueles olhos sanguíneos de vida.

- Não há para onde fugir!

Aquela voz grave que vinha da rua à frente da torre não estava sozinha. Todos os policiais que não estavam ajudando na evacuação dos civis estavam ali, com suas armas apontadas para ela. Não eram muitos, mas ainda assim eram um incômodo. Sorte que ela tinha o remédio perfeito para aquela dor de cabeça.

- E quem é que falou em fugir?

Ela puxou a tampa de um engradado de madeira que até agora estava usando de apoio; na tampa ficaram grudados vários pinos, enquanto que dentro ficaram as granadas - sem os pinos. Empurrou a caixa com o pé e observou sua queda como quem espera uma moeda cair no fundo de um poço.

Mas ela não contava que um dos policiais tivesse um desejo tão mórbido de se tornar um herói e virar nome de praça. O jovem cadete se lançou para frente, onde a caixa iria cair há poucos metros do grupo no chão. Não havia tempo para segurar a caixa e decidir o que fazer com ela. Ele simplesmente agarrou o engradado e continuou correndo para frente, para a entrada da torre do relógio.

- Que incômodo... - ela murmurou ao ouvir a explosão na base do edifício. Em poucos segundos, não restava pedra sobre pedra.

Quando acordou, estava tudo escuro. Uma viga que passava por cima de metade de seu corpo havia segurado a maior parte do peso dos escombros. Porém, o seu braço esquerdo não teve tanta sorte quanto o resto. Um dos ponteiros do relógio atravessou-o perto do ombro e ela não conseguia mexer nada daquele ponto em diante. Por um triz não atravessara sua cabeça. Era quase um milagre ela estar viva depois de cair daquela altura junto com a torre.

"Espera aí! Um milagre? A dor deve realmente estar me deixando tonta."

Já que não podia usar seus braços para muita coisa, começou a chutar os escombros de cima de si. Aos poucos os entulhos cederam e a luz do luar entrou pelo buraco. Não tinha noção de quantas horas se passaram desde a queda.

Assim que tentou se levantar, a dor no ombro lhe indicou que estava presa por causa do ponteiro gigante. A haste de metal trabalhado estava prensada sob uma camada maior de entulho que ela não conseguia empurrar. Tateando em volta, encontrou seu último recurso: uma bomba caseira que estava guardando para a sua fuga da torre, caso precisasse chegar a esse ponto. Ainda ia utilizá-la para fugir, mas não do jeito que imaginava.

Tirou o cinto e amarrou-o em torno do ombro o mais alto que pode usando o braço livre e a boca. Depois, posicionou a bomba numa das volutas do ponteiro. A sua única chance de sair dali era destruindo o que a prendia. Cobriu a cabeça com uma placa de metal dos escombros e pegou um dos isqueiros que tinha nos bolsos. Sem hesitação alguma, acendeu o pavio.

Mesmo com a proteção improvisada, o barulho da explosão a deixou surda e tonta. Mas isso não era o pior. A dor que sentia no ombro era tanta que ela quase desmaiou. Mesmo sem ver, ela já sabia o resultado: havia explodido o braço junto com o ponteiro de ferro. Pela primeira vez desde que acordara ela soltou um grito de dor. Parecia que todas as suas forças se esvaiam no ar com seu desespero.

Quando achava que não ia aguentar mais, um pensamento trouxe lucidez de volta a sua mente: "Eu tenho que terminar o que comecei."

A maioria das pessoas apenas sobrevive dentro de suas rotinas, enganando-se diariamente sobre quem são e como o mundo funciona. A verdade é que todos tem um pouco de caos dentro de si. Algumas pessoas, até, tem muito. Ela era uma destas pessoas e essa era uma verdade que ela estava determinada a expor ao mundo: ela existia.

Arrastando-se para fora do seu buraco, ela se deparou com um homem uniformizado. Era um dos policiais. Pelo visto o ato heróico daquele cadete não havia sido suficiente para salvar os colegas. Por isso ninguém havia vasculhado os escombros atrás dela.

- Foi mal. Ainda tenho coisas para explodir.