segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Ecos

O som repetitivo da corda do violão gerava pequenos ecos enquanto o homem procurava o tom certo em seu ouvido já destreinado pelo longo período de privação da música. As cordas eram velhas, mas haveriam de bastar...

A rua deserta carregava os sons da afinação do instrumento e trazia de volta a resposta dos prédios. Quem diria que a relva e as trepadeiras que infestaram a cidade deserta fariam tamanho milagre pela acústica daquela rua pestilenta e mal cheirosa?

O homem tinha os cabelos e barba compridos, grisalhos e desgrenhados típicos daquele que esqueceu há muito conceitos básicos como auto-estima e vaidade. Não sentia necessidade de se embelezar para si mesmo, e há anos não via ninguém a quem fazê-lo. Atrás do violão, parecia algum músico itinerante naturalista mais descabelado que o normal.

Satisfeito com o som do primeiro acorde, começou a tocar e, falha e sem afinação, sua voz, essa preguiçosa já desabituada ao esforço e há muito acomodada no descanso constante, saía em tons roucos que apenas sua imaginação entendia.

"When you're smiling... keep on smiling... the whole world smiles with you pe pibi pobô" cantava animado com os olhos fechados. As paredes de concreto e o mato que brotava das rachaduras do asfalto eram sua plateia, e o eco suave e descompassado da música era o coro que o acompanhava. Seu concerto para ninguém podia ser ouvido a centenas de metros, tão profundo e denso o silêncio naquele lugar esquecido por Deus.

Cantou sobre sorrisos e sobre a chuva e, quando terminou, começou a rir de si mesmo. Notou que o instrumento já perdera a afinação, mas estava fascinado demais para desistir de tocar e tornou a afiná-lo.

Continuaria sobrevivendo ao clima e à escassez de comida como o fizera por muito tempo. Apesar disso, cantava resgatando aquela ponta de alegria de cuja preciosidade só ele tinha noção. Sabia que ainda sofreria, mas sabia também que isso não era motivo para parar a música. No feio que o mundo lhe dera sabia que haveria de garimpar o belo se o quisesse para si; e se isso fosse fácil, seus antigos amigos não teriam desistido de viver. Ele, porém, continuaria vivendo, fosse por teimosia ou vício.