quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Máquina de Escrevinhar (realidade 1)

Tap-tap-tap noite adentro.

Ela ali na cama, fingindo que dormia. Enquanto isso, ele sentado na escrivaninha. Queria que o sono viesse logo, mas o tap-tap na máquina de escrever a mantinha acordada.

Queria dizer que era pela curiosidade. Pela manhã, adorava ler o que ele havia escrito. Nem sempre era um bom texto, mas era ele que fazia, seu amor, e aquele era seu sonho. Queria dizer que seu orgulho por ele era mais forte, mas não era isso que a mantinha acordada enquanto ele escrevia. Era a solidão. O medo de ser trocada pela máquina de escrever, algum dia, quando seu apoio não fosse mais necessário. Eram as noites vazias de carinho que a assombravam.

Apertou os dedos no lençol, engolindo o choro. Não queria que ele soubesse que estava acordada. Ah, mas ele sabia! Sabia, e não fazia nada. De vez em quando, olhava-a de soslaio, mas não dizia nada. Sabia que ela estava acordada, assim como sabia que ela fingia que dormia. Sabia, e nada.

Quando finalmente pegava no sono, sentia que não descansava. Apenas piscava, e já era de manhã. O sol entrava pela janela e ele já estava na cozinha.

Seguindo o cheiro do café, encontrou apenas sua xícara sobre um calhamaço de papéis sobre a mesa. Ele já havia saído para o trabalho. Pegou a xícara e leu na primeira página da pilha: "Para minha insônia, algumas gotas de luar".

Depois daquelas páginas, nunca mais teve uma noite mal-dormida, mesmo com a máquina a tap-tap-tapear na madrugada. Ela era a força motriz da insônia criativa de seu amor, e esse era o melhor dos soníferos. Ele sabia dos seus temores, mas também sabia da sua dedicação. Ele sabia da sua dificuldade para dormir, por isso não a incomodava durante a noite. Ele sabia, e isso era tudo.