quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Matando no Grito

"I sound my barbaric yawp over the roofs of the world."*
- por Walt Whitman


O rugido do rei da savana esticou-se pela grama alta, paralisando os pequenos animais à beira da lagoa. Os mais altos esticaram seus pescoços, esperando ver a aproximação do predador, mas a vegetação era sua aliada. O silêncio antes do furacão era devastador. Um velho gnu não resistiu. Antes mesmo que o leão chegasse seu coração já estava parado. Seus anos a mais salvaram os mais jovens da manada.

O forte luar precede o uivo que corta a noite. Mais um e outro o seguem, e logo a floresta está permeada de medos e corre-corres. Os que conseguem se escondem em buracos, mas essas noites barulhentas sempre fazem vítimas. A manhã seguinte sempre encontra alguns ossos para enterrar.

Um virador de latas encontra uma surpresa: de uma delas cai uma bola de pelo ouriçada e afiada. O rosnado agudo do felino e seus dentes afiados botam a criatura maior para correr. Assim ele protege seu bem mais precioso: pequenas bolinhas de pelo com os narizes rosados que não paravam de chorar no fundo da lata. O rosnado protetor logo se põe a lamber aquelas vozinhas chorosas e agudas. Logo teria que trazer um presente que as aquietasse.

Um punhado de vozes. Um grupo de vozes. Um amontoado de vozes. Megafones na mão, vozes se fazendo ouvir por toda a rua, uma nação. A fachada de vidro gélido tenta barrá-las, mas lá dentro há dentes podres que batem, tremem. Muitas vozes fortes lá fora, e ali dentro apenas corações vazios.

Muitas vozes fortes mundo afora. Se ao menos elas fossem tão fortes quanto suas vontades... Se ao menos elas fossem... Se ao menos... Se...

O jogo da sobrevivência tem que ser vencido no grito, ou de nada valerá o esforço da vida.

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* Tradução livre: "Eu sôo meu urro barbárico sobre os telhados do mundo."