terça-feira, 5 de novembro de 2013

Navio dos Tolos

Muitas vezes, durante nossa vida, tendemos a embarcar em um navio que possui um destino certo: o fundo do oceano. 

Pisamos com cuidado e estudamos o terreno. Decidimos então por ir em frente, e manejamos as entranhas inquietas que gritam. Gritam para sairmos fora o quanto antes. Para voltarmos para a terra firme, para o nosso porto seguro. Mas criamos coragem. Aquela coragem tola que mais soa como um ímpeto infantil - daqui não saio, daqui ninguém me tira. E ficamos. Vamos ficando. 

Porque navio que afunda precisa estar na água, e de preferência em alto mar. E do porto até o meio do oceano é um longo caminho. E é nesse caminho que encontramos pequenos sentimentos que nos fazem querer ficar, ignorar a bóia salva-vidas, o bote e as chances que a vida nos da de cair fora. Porque a vida se preserva, mesmo quando tentamos fazer o contrário. 

Ficamos em busca de fragmentos de emoções, os quais - quando finalmente achamos - se esfarelam em segundos. Navegamos por mares desconhecidos e quebramos ondas furiosas que se jogam contra nós. Tudo isso em busca do frio na barriga, do formigamento das pernas. A palavra sussurrada que traz o arrepio, a lágrima contida e o sorriso que derrama. Buscamos o toque leve, a aventura.

As vezes pensamos em desistir, em voltar nadando até a praia e se afogar na areia. As vezes tudo o que queremos é o nosso porto já tão conhecido, familiar. Mas aí vem o balançar do navio, o cheiro salgado e o vento morno. Aí vem a pequena troca de palavras, de carinhos. E você fica. Vai ficando, acompanhando as velas estufadas cheias de vento, cheias de nada. Mas um nada que nos leva a algum lugar. E quando chegamos a esse lugar podemos dizer que nunca vimos um oceano tão belo. E tão profundo.