terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Caronte

Quando a ampulheta da vida derrama seus últimos grãos, a única certeza que a pobre alma humana tem é a de duas visitas: na primeira você é o anfitrião e na segunda é o convidado. 

A primeira virá até você. Na maioria das vezes ela é rejeitada e negada. Aquele hospede inconveniente que você quer que vá embora antes mesmo de cruzar a porta. Porém, como a eternidade é um relógio que te vence pelo cansaço, uma hora vem a aceitação. E aí, temeroso, você acompanha aquele sujeito desajeitado, que mais parece um rapaz cansado, mas que jura que está encarregado de uma grande tarefa.

A segunda visita é igual aquele lugar que você vai mas não quer ir. Não sabe o que fazer e não vê a hora de ir embora. Porém, essa é uma visita só de ida. Todo mundo que chega até o porto tem que embarcar. O barco é modesto, de madeira, e só tem espaço para uma pessoa de cada vez. Ele é sempre o mesmo e o barqueiro também. 

O destino de todos é o mesmo, seja o mais nobre dos reis até o mais miserável ladrão. E é aí, meu amigo, que as coisas ficam complicadas de explicar. Como um rei como eu vai embarcar nesta canoa? Eles perguntam. Eles tinham dinheiro, queriam algo maior, mais majestoso. Da para entender. 

Mas o problema é que quando você recebe a primeira visita, o que fica são os ossos, as cicatrizes. E quando chega no porto, tudo o que entra no barco é aquilo que a terra não levou, não comeu. Suas memórias, dores, alegrias, mágoas, amores e desavenças. Tudo vai ali misturado. Um amontoado de anseios, alegrias, feridas, saudades e arrependimentos.

A travessia é sempre longa. Longa o suficiente para você pensar na vida que deixou para trás e na que está por vir. O que está por vir? Ninguém sabe. Nem eu. Meu trabalho é só remar e te levar de um lado até o outro. 

“E a moeda?”  - Alguns me perguntam. 

Essa eu guardo para o cigarro.