quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Era o calor

Aquele do lado oposto da sala sustentava o olhar desfocado. A outra, ao fundo, absorta num mudo inconformismo, boquiaberta. Na ponta, uma efetivamente cochilava. Ao lado, infelizmente, um fedia suor.

Claro que era aquele dia, incomumente calor, ainda mais naquela cidade, ainda mais em pleno agosto. Não era o palestrante.

Verdade seja dita, não era para ser um palestrante. Esperava-se um professor, um guia, um facilitador para a reflexão e criação de textos. Ou uma fonte de inspiração, para os mais otimistas. Mas não.

Naquela tarde todos foram empanturrados dele mesmo. No máximo textos do próprio vaidoso autor, ou palestrante, ou pretenso professor.

A disposição das cadeiras, em forma de círculo, não inibiu o sono, ou o passeio livre de pensamentos distantes e desconexos. Talvez até incentivou o falatório, vai saber.

O café e a água gelada ficaram a um canto, às moscas. Ninguém precisava medicar-se; ninguém mais queria estar presente.

Lá fora o céu brilhava, e o tempo não passava. Certamente era o calor, aquele tempo quente estranho por ali. Certamente.