quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Máquina de Escrevinhar (realidade 2)

Tap-tap-tap noite adentro.

Ela ali na cama, fingindo que dormia. Enquanto isso, ele sentado na escrivaninha. Queria que o sono viesse logo, mas não conseguia parar o tap-tap da máquina de escrever.

Queria dizer que o motivo de sua escrita era ela, sua inspiração. Queria poder colocar no papel o quanto a amava, o quanto precisava dela em sua vida. Queria tanto estar à altura das expectativas daquela mulher e devolver em dobro todas as fichas que ela apostara nele. Mas as fichas haviam acabado meses atrás, junto com o dinheiro do aluguel. Agora tudo que ele tinha nas mãos eram contas que se acumulavam.

Tinha medo. Medo de perder para a vida. Medo de perdê-la para a vida. Medo de perder a vida. Por isso escrevia sem parar, durante o dia, durante a noite, enquanto o sono permitia. Enviava seu material a todas as editoras do país, mas nenhuma retornava o contato. "São tempos difíceis" alguns se davam ao trabalho de responder, "não estamos acolhendo novos autores este ano". E maio ainda estava em vigência.

Tempos difíceis. Ela tinha que sustentar a ambos. Até a comida era pouca. Talvez, se ela cuidasse apenas de si, não estaria tão magra. Talvez pudesse comprar uma saia bonita para usar no lugar da calça remendada. Talvez... se o tap-tap na máquina de escrever não fosse em vão.

Ironicamente, esse tap-tap-tapear era o que o mantinha vivo, e era também o que o estava matando. Não se importava em morrer pela sua arte, mas não aguentava ver sua amada sendo arrastada com ele para o fundo do poço. Talvez, se saísse de cena... Talvez...

A máquina de escrever parou, o sono vencia. Preencheu o espaço desocupado na cama, mente exausta, corpo fraco e barriga vazia. Mas com o coração cheio... cheio de amor e angústia.

Quem o despertou de seus pesadelos foi o sol alto a entrar pela janela aberta. Estendeu a mão e apertou o lençol, esperando encontrar o espaço de sua amada trabalhadora vazio. Porém, seus dedos se afundaram numa folha de papel. Sonolento, abriu os olhos lentamente como quem não quer ver. Temia que fosse uma carta de adeus. Tinha tanto medo... tanto amor, tanta angústia... tanto medo.

As palavras foram digitadas com a máquina de escrever. Sua máquina, aquela máquina maldita, veículo de seus sonhos e tormento de suas entranhas. Com aquelas teclas sua amada escreveu "meu herói", e só.