segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Das coisas insignificantes

Os dois pesquisadores se seguravam na barra metálica próxima à janela enquanto observavam no exterior o ônibus espacial atracando na estação para trazer uma nova equipe.

“É isso” disse ela com um sorriso satisfeito. “Hoje nós voltamos pra casa, depois de dois meses”.

Ele olhava para fora silencioso e saudosista. Sentiria falta da estação espacial, mas tinha saudades das coisas que apenas o planeta natal lhe fornecia. Ela, ao notar-lhe a reticência, decidiu comentar.

“Você anda mais quieto que o normal”.

“Eu estou pensando... aqui em cima a gente está distante de quase tudo de bom. No começo tudo é novo, divertido... depois fica cansativo e repetitivo...”

“Entendo” disse ela, ainda com o mesmo sorriso. “Nesse caso, é um bom motivo para ficar feliz. Você está voltando para o seu lugar”.

“Sim... mas ao mesmo tempo eu me sinto ridículo”.

“Por que isso?” questionou ela curiosa.

“Essa noite eu sonhei que estava tomando refrigerante. Eu sinto falta, sabe? Eu poderia sentir falta do céu azul, dos parques de diversões, das coisas bonitas e poéticas... mas meu subconsciente sente mais falta de beber uma bebida com gás sem medo de ter um problema no estômago por conta da falta de gravidade”.

“Talvez sejamos meio ridículos” disse ela rindo de espanto da confissão do colega.

“Acho que a gente dá muita importância para coisas bobas” concluiu ele. “Estou numa estação espacial, dando um salto na minha carreira, mas estou preocupado com refrigerantes”.

“As coisas deixam de ser bobas quando sentimos falta delas. A saudade dá importância para coisas muito pequenas. Quando a vida nos priva de algo, notamos que não existem coisas realmente insignificantes” devaneou ela.

Ele olhou para ela espantado. “Vai colocar isso no prefácio do seu livro, é?”

Ambos riram.

“Vamos pegar nossas bagagens” disse ele por fim. Cumprimentaram a nova equipe que, animada, carregava as bagagens para os postos.

Das câmeras do ônibus espacial era possível ver a aura azulada que era a atmosfera àquela altitude.

“Não existem coisas realmente insignificantes” ecoou de seus pensamentos o rapaz que observava de longe o planeta que chama de casa. Ela, despreocupada e despretensiosa, apenas buscava se acomodar no assento da forma mais confortável possível para curtir ao máximo os próximos momentos de expectativa.