quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Dicotomia

Duas xícaras e uma mesa os separavam. Um cappuccino, com mais leite que café, e um expresso puro. Ambos fumegavam em cima dos pires, tocados constantemente por dedos tamborilantes, mas sem alcançar boca nenhuma. Estavam inquietos.
  
A conversa fluía estranha, truncada. Os assuntos se atropelavam e as palavras se perdiam. Sabiam da existência um do outro há anos mas nunca chegaram a falar sobre coisas corriqueiras, nunca tiveram aquelas conversas de bar que iniciam longas amizades de uma noite. 

“E o que você gosta de fazer nas horas vagas? Que tipo de filmes você gosta de assistir? Quais são suas ambições? E seus ideais?”. Nada disso era necessário para se sentir familiar.

Podiam passar horas conversando sobre qualquer coisa sem importância, sem esgotar o assunto e sem esgotar a si mesmos. Eram completos estranhos dividindo uma mesa de café, tomados pela ansiedade de manter o contato, de mostrar um pouco de si e de sustentar um olhar que insistia em escapar para o quadro atrás do balcão ou se demorar nas paredes recém-pintadas.

Apesar de se conhecerem há tanto tempo, eram raras as ocasiões em que trocavam palavras frente a frente. Em mundos paralelos, perdidos dentro dos pensamentos e loucuras, eram dois seres que não coexistiriam em lugar algum. Apenas naquela mesa de café, durante aqueles minutos.

Minutos que voavam, acompanhando a ansiedade daquele encontro. E como sempre, chegava a hora de partir.

Com um ultimo suspiro virou a xícara morna de cappuccino, calou o burburinho latejante em sua cabeça, guardou o alter ego dentro de si e foi embora. 

O expresso, agora frio, continuou intocado. E a cadeira a sua frente vazia.