quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Sépia

Aquela imagem em tons de sépia parecia ser muito mais antiga do que realmente era. Pintalgada pelo tempo que passara na gaveta, manchada pela umidade, uma dedicatória borrada no verso. As pontas do papel se enrolavam para dentro como se as pessoas no retrato quisessem voltar a dormir e puxassem o cobertor em volta do corpo. Mas a senhorinha insistia em esticar os cantos para poder ver a imagem por completo.

Três amigos se abraçavam na frente de um prédio antigo, talvez moderno para a época da fotografia. Lembrava-se muito bem de onde ficava aquele prédio, mas hoje as cores eram outras. Pelo menos achava que era, não podia ter certeza apenas pelos tons de sépia da fotografia. As roupas haviam saído de moda há algumas décadas. Os cabelos, então, pareciam coisa de outro mundo. Tudo parecia ter acontecido há tanto tempo que nem parecia real.

Mas os sorrisos, estes de dentes tortinhos e muito brancos, sinceros e espontâneos, estes sim pareciam se agarrar ao tempo e se arrastar pelo presente. Se fechasse os olhos, podia até ouvir as risadas, imaginar uma piada ou apenas uma conversa leve entre amigos. Aquilo nunca mudava, não importava a era, o século, o ano ou o lugar no mundo.

Como sentia falta das risadas dos amigos! Tudo acontecera há tantos anos... Eles se foram, deixando para ela apenas boas lembranças e uma fotografia. Tinha tanto medo de esquecê-los. Sua memória, como aquele pedaço de papel, estava amarelando com o tempo, perdendo a cor do presente, perdendo os sons. Já não lembrava por que sorriam na foto. Não lembrava por que haviam parado na frente daquele prédio. Não se lembrava nem do ano, pois a dedicatória estava borrada e apagada, como sua memória.

Mesmo assim, aqueles sorrisos lhe traziam algo de reconfortante, uma certeza que ela tivera por toda a sua vida e que agora, no ocaso de seus dias, era capaz de enchê-la com uma paz calorosa. Ela havia sido feliz, e essa era a única lembrança de que precisava.