terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

A loucura do outro

“É difícil saber se estamos sonhando ou não” disse o garoto olhando para seu reflexo no espelho. “É difícil saber se o mundo ficou louco ou se fomos nós”.

“Você quer dizer que o mundo pode estar louco ao invés de você?” questionou o reflexo em tom jocoso. “Você tem ideia do quão ridícula essa ideia pode ser?”

“Sim” respondeu o garoto com um sorriso. “Nós estamos falando de loucura, ideias ridículas podem brotar por todos os lados”.

“E de onde você tirou essa em específico?” perguntou o reflexo, tentando levar seu jogo adiante.

“É simples: se eu estou louco, a sanidade do mundo pode me parecer louca e a minha loucura pode me parecer sobriedade, talvez até mesmo sensatez. Por outro lado, se o mundo está louco e eu são, a minha sanidade lhe parecerá loucura”.

“Então você está dizendo” começou o reflexo, tentando elaborar uma hipótese de absurdo “que não existe, no final, diferença entre sanidade e loucura?”

“Não” respondeu o rapaz balançando a cabeça em tom condescendente “eu estou dizendo que a diferença entre loucura e sanidade é coisa do referencial. Loucura para mim é diferente de loucura para você”.

“Você só está dizendo isso para arranjar algum jeito de dizer que o resto do mundo está louco enquanto só você está são” acusou o reflexo com um indicador em riste.

“Não preciso pensar muito para isso” disse o garoto rindo. “É óbvio que o mundo enlouqueceu há muito tempo, mas se considera são em suas buscas e lutas sem sentido. Eu aceitei que ele pode me achar louco, e acho que ele está certo nisso. Quando o mundo aprender alguma sabedoria, entenderá que eu posso achá-lo louco também, e não me condenará. No fundo, a gente acha que algo é sanidade, mas não passa de uma loucura prepotente”.

“Então você se acha sábio” concluiu o reflexo.

“Mais sábio” corrigiu o rapaz.

“Pra mim você é apenas um maluco” disse o reflexo em tom de encerramento de conversa.

“Que bom!” disse o garoto radiante. “Não errei ao te achar meio biruta então”.

Fosse loucura ou sensatez, o sonho encontrou sua conclusão com o espelho se quebrando e o reflexo se desfazendo em partes desconexas. Um mundo normal, com suas lutas normais, recebeu o garoto com sua luz e o som desagradável do despertador.

Durante o trabalho, não conseguia lembrar com muita clareza das coisas com as quais sonhou. Não conseguia lembrar de que lado do espelho estava, se era imagem ou reflexo. Lembrava apenas do belo mosaico de reflexos criado pelas rachaduras.

Fora do sonho, o mundo normal era obviamente o que há de sóbrio. Os jornais, como bulas, explicavam o que é normal, e nas revistas se discorriam ensaios sobre a sensatez e comentários jocosos sobre a loucura alheia.