terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Picadeiro

Durante os anos da minha infância eu costumava passar as tardes de domingo na casa da minha melhor amiga. Lá nós deitávamos na grama e discutíamos desde a origem do mundo até os palpites sobre qual seria a sobremesa. Eu era mirrado e quieto e ela era dois anos mais velha e por isso sempre acabava escolhendo qual assunto iríamos abordar. 

Em um determinado dia, lembro-me dela comparar as pessoas com pequenos equilibristas. 

- Por que equilibristas? - Perguntei. 

- Porque elas vivem se equilibrando. Parece que estão sempre andando sobre o novelo dos fios que regem as coisas.

- Mas que coisas? - Era sempre a pergunta que se seguia após seu pensamento soar inacabado. 

- As coisas. - Respondia ela sem paciência. - Sabe? As coisas que ligam o mundo, aquele emaranhado de fios que nos ditam as regras. 

Achei que entendi e resolvi me calar. Eu sabia que ela iria falar mais alguma coisa. 

- Nós sempre estamos sobre os fios, decidindo para que lado cair e se algum deles realmente vale a pena. Sempre inseguros, com medo de pular e não conseguir voltar mais para esta falsa segurança de poder decidir algo. Medo de não poder mais equilibrar as coisas. 

Vendo daquele jeito, sua ideia fazia sentido. 

- Então nossa insegurança transforma o mundo num lugar cheio de equilibristas? - Perguntei. 

- Isto. - Ela parou por um momento e então continuou: Quase como um circo gigante. 

Seguimos então para uma interminável discussão sobre o bolo de chocolate que nos esperava depois do almoço. 

Só entendi o real significado de suas palavras muitos anos mais tarde, quando também me vi dando passos incertos por sobre fios instáveis.