quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Só dói quando eu penso


O teto do quarto se desdobra em invisível inquisidor. Apesar dos olhos não conseguirem discerni-lo com clareza devido à escuridão da madrugada, ele está lá, cumprindo seu papel de linha divisória feita de concreto, tijolo, argamassa e talvez ninhos de pombos e cadáveres desaparecidos da ditadura. Havia também a consciência da cama ao redor e do chão sob ela, linha idêntica ao Teto e de igual função, diferenciada apenas pela posição do espectador e sua relação com a gravidade.

Um suspiro causado pela certeza de que o sono não chegaria tão cedo, criando espaço para aquele momento incômodo no qual os pensamentos ganham autonomia silenciosa e pungente. O Corpo mergulhado em silêncio segue encarando o Teto sem objetivo, incapaz de cumprir seu objetivo ao deitar-se.

“Eu tenho que dormir para conseguir levantar no horário amanhã.”

Mas não é estranho que o ato de descansar, relaxar, seja uma meta agendada da mesma forma que uma reunião ou um dever de casa?

“E começou...”
Aseguirvematecnologiaaceleradaocapitalismoelitistaofacebookohelicópteroavidaapósamorteouainexistênciadelaosdireitoscivisedosanimaisapolêmicadasemanacomaquelecomediantebolsafamiliaasériequetodosestãoassistindoofilmedaquelediretorquemanjadasputariasosentidodouniversoeafaltadeletudoqueprocrastineiessasemanaquantosanoseuaindatenhoeoqueestoufazendocomminhavidaodeiobancosmediocremeusuperiorécincoanosmaisnovoqueeuemeudeuspor que eu não consigo dormir deumavez????????????????????.

Seria legal se tivesse mesmo um cadáver no forro.

Poderíamos ter altos papos.

...

Quer saber, deixa pra lá.

Seria tão ruim assim me atrasar amanhã? 

Pensando seriamente. Apesar de não ser hora pra isso.

Nunca é hora pra isso.

“Eu tenho que dormir para conseguir levantar no horário amanhã...”

...

O Teto e o Cadáver do forro permanecem indiferentes aos estalos da cama, às idas ao banheiro, ao Corpo descobrindo a solução para todos os seus problemas sentimentais, definindo seu próximo projeto de vida e reavaliando todas as escolhas erradas... durante quase uma hora, até a semiconsciência se apagar completamente e um novo dia nascer.

E o mundo voltar a ser seguro, lógico, rotineiro e indolor pelas próximas 12 horas.