terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Tempestade e Calmaria

Quando completei dezessete anos e passei na faculdade tudo o que eu sabia era que eu ia mudar de Estado e de vida. Abandonar a casa dos meus pais e meus únicos amigos. Ao contrário do que todos pensavam eu não estava empolgado ou aterrorizado. Não sentia nada além de uma breve continuação da minha vida naqueles anos de colegial. Nunca nada me dava o tal do “frio na barriga”. Nada me importava. 

Foram estas ideias que me acompanharam quando fui visitar meu avô pela ultima vez. Foi numa noite de março, quando o frio começava a dar lugar ao ar morno da primavera e o jardim voltava a ser um lugar agradável. 

Meu avô, como sempre, estava sentado em uma cadeira de frente para o oceano. A água calma batia contra as pedras e as ondas engoliam a água rasa e depois se esvaziavam, rítmicas, quase hipnotizantes.  

Durante minutos ficamos em silêncio e então conversamos sobre minha vida e meus planos para o futuro. Meu avô contou como se tornou um marujo e navegou pelos sete mares. Contou sobre as cidades que conheceu, sobre os amores que deixou e as angústias que navegaram com ele. Contou como conheceu vovó e abandonou os  mares, trocou o barco, as ondas, as aventuras e as incertezas por esta casa em que estávamos e como não se arrependia de nada. 

- Mas como você sabia que ia ser feliz aqui? - Perguntei depois de tentar absorver toda aquela história que mais parecia ter saído de um livro de piratas. 

- Sabendo. - Respondeu simplesmente, sem titubear. - Quando você navega por mares incertos, meu filho, tudo o que você mais quer é um porto seguro. Eu encontrei ele aqui, com a sua avó. 

Entendi que aquela era uma das histórias de amor que ainda estavam além da minha compreensão e apenas mergulhei em meus gastos pensamentos.

- E você? Qual é seu porto seguro?

- Eu não tenho um porto seguro. Na verdade o que eu mais tenho medo é de ficar parado em algum lugar. Tenho medo de não seguir em frente, de não poder explorar todas as oportunidades. Tenho medo de fazer minha faculdade e descobrir que no fim das contas ela não me serviu para nada e que eu estou novamente perdido, sem nada nas mãos. 

A princípio pensei que meu avô não tinha ouvido nenhuma palavra de meu desabafo juvenil. Ele fitava as ondas calmas, engolindo umas as outras, como se nada mais importasse para ele naquele momento. Mas as palavras que seguiram me surpreenderam:

- Então seu porto seguro é na tempestade. Você não pode parar de remar. É a aventura e o desafio que vão lhe guiar por entre as ondas. E quando você achar que tudo está perdido e que você se cansou do balanço calmo e do por do sol acolhedor, vá atrás de uma nova tempestade. É ela que vai desfazer seus antigos caminhos e te colocar no meio de algo novo e desconhecido. 

Meu avô morreu pouco depois de eu me mudar, mas essas palavras me perseguiram para sempre, ditando o rumo cada vez que eu me perguntava: É aqui meu porto seguro?