segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Um pequeno milagre...

"Você não entende" disse o rapaz franzino com seus olhos tipicamente arregalados. "Você nunca teve uma experiência do tipo. O anel funciona" concluiu sacudindo o pequeno anel de plástico por cima da mesa do bar.

"Claro claro" disse o amigo ruivo aos risos, o balançar de suas risadas bagunçando o cabelo em corte de tigela. "Um anel de plástico que você encontrou num doce que realiza desejos. Deixe-me tomar um gole de minha cerveja que dá a vida eterna para aproveitar melhor nossa conversa".

"Eu estou dizendo" insistia o rapaz. "A hora que você tiver o primeiro desejo cumprido vai aprender a ter um pouco mais de respeito". Foi então que percebeu que sacudia seu tesouro a vistas abertas e o escondeu cauteloso no bolso interno de seu casaco. Não poderia ser leviano com as "coisas maiores".

"Certo" disse o ruivo enquanto enchia novamente os copos com cerveja. "Me empresta esse treco então que eu vou fazer um pedido. Aí, pelo menos, você para de me encher o saco".

O outro sorriu e lhe entregou o anel em mãos com uma reverência religiosa. "Você precisa colocar no dedo do meio" instruiu gesticulando como se colocasse um anel imaginário na própria mão.

"Por que no do meio?" perguntou o outro com uma sobrancelha levantada, a interrogação que pontuava sua pergunta transparecendo em seus olhos. "Que diferença faz?"

"Não tente entender as coisas maiores" disse o franzino irritado. "Elas estão além da nossa mente limitada. Agora faça um pedido, mas não fale em voz alta".

O ruivo olhou pensativo para cima por um instante. "Pronto" anunciou.

Um forte barulho de estouro ecoou pela rua e o quarteirão ficou sem energia elétrica. Pessoas pelo bar erguiam as mãos e gritavam empolgadas, outras batiam sobre a mesa. Algum bêbado mais espalhafatoso derrubou um copo em algum canto fazendo um estardalhaço de cacos de vidro. O rapaz dos olhos arregalados virava de um lado para o outro boquiaberto. "Tá vendo só?"

"Eu não desejei que o transformador da rua estourasse" correu a corrigir o ruivo. "Nem que você ficasse com cara de idiota". Soava seguro, mas por um instante cogitou apenas para si: "Gente... eu fiz isso?"

"Você insiste nesse ceticismo mesmo depois disso?" perguntou o outro com os olhos ainda mais arregalados que antes.

"Essas coisas acontecem. Supere. Raios caem, ventos mudam, pássaros voam, chuvas vêm e vão e a nossa distribuição de energia falha de tempos em tempos. Não tem nada místico nisso".

"Você nunca vai aceitar os fatos" disse o franzino balançando a cabeça com um olhar decepcionado.

"O fato é que o mundo continua do jeito que é, independente de eu usar ou não um anel de plástico".

"Chega" disse o garoto, cansado da falta de fé do colega. "Me devolve meu anel que eu vou pagar minha conta".

O místico foi embora sem terminar sua cerveja, deixando para trás um bar escuro e barulhento, repleto de pessoas que viam na falta de luz um motivo a mais para se divertir.

"Caramba" disse o ruivo balançando a cabeça em sinal de assombro. "Agora nunca saberei se ele foi embora por coincidência ou porque o anel cumpriu meu desejo". O mundo é mesmo cheio de mistérios, pensou para si... para comemorar os pequenos milagres da vida, pediu outra cerveja. Logo elas esquentariam, era melhor aproveitar.