segunda-feira, 17 de março de 2014

Cavaleiro anônimo

O ar já era pesado de respirar e a visão já perdia o foco com facilidade. Com grande esforço, o cavaleiro utilizava a espada como apoio para se levantar. Seu escudo quente estava mais pesado que nunca e as dores por todo o corpo já denunciavam que não havia mais muita luta para seus músculos.

A besta gigante voava em círculos, sondando o campo de batalha com uma paciência aterrorizante. O sonho de todo cavaleiro é matar um dragão em combate. Não restando mais seus companheiros para auxiliá-lo ou seu cavalo para dar-lhe o impulso que gostaria para seus golpes, o homem estava finalmente sozinho com o monstro de todos os pesadelos de seus antepassados. Era o último cavaleiro em pé, e o único que poderia impedir o dragão de chegar à cidade.

Que diferença faziam agora seu escudo e sua armadura? Outro golpe como os anteriores seria fatal, e não seria capaz de conter outra labareda de fogo como a que suportou há pouco. Soltou o escudo chamuscado do braço e o deixou cair fumegante sobre o chão preto de grama queimada.

Qual era seu nome? Sim, os cavaleiros sonham em matar dragões e serem lembrados. Seus nomes são escritos nos muros das cidades e reverenciados como heróis que não podem ser mortos. A imortalidade vem quando seu nome é carregado pelos bardos e pelos livros. Mas qual era o nome desse cavaleiro?

Tirou ele o elmo para que pudesse mover a cabeça com mais liberdade e soltou as tiras que seguravam o peitoral de aço. Não, ele não tinha um nome. Não era bonito como nas pinturas dos grandes cavaleiros: estava sujo, ferido por fogo e coberto de marcas do combate brutal, o cabelo parcialmente queimado caindo sobre o rosto coberto de fuligem. Seria esquecido, pois ninguém estava ali para saber das façanhas de sua espada ou da bravura de sua morte.

Era isso que ele tinha de especial, e era também isso que o tornava tão importante: naquele momento, ele não se importava.

O dragão desceu ao chão com violência, fazendo a terra tremer e rugindo com o som de um milhão de feras selvagens. Esse era o mesmo rugido que desfez a formação dos cavaleiros no início do combate, mas não era mais capaz de afetar esse incógnito.

O homem segurou a espada com as duas mãos e ergueu-lhe o cabo à altura da cabeça. Sua morte seria esquecida pelos habitantes da cidadezinha, mas seriam eles mesmos o legado que o tornaria imortal. Enquanto vivessem, inventassem, comercializassem, amassem e fizessem músicas sobre a vida, ele seria eterno, mesmo anônimo.

Correu em direção ao monstro e à morte; em direção à glória do esquecimento. Estava feliz como poucos cavaleiros antes dele.