terça-feira, 4 de março de 2014

Contrabando

Uma a uma as luzes se apagaram. Através das janelas era possível sentir o cheiro do jantar se misturando ao vento fresco da noite, ouvir as conversas cessando e o tilintar dos copos batendo uns nos outros ao serem recolhidos. Era possível, também, ver as pessoas se levantando das mesas, desligando as televisões e dando abraços e beijos de boa-noite. As luzes dos quartos acendiam apenas por alguns minutos, para então mergulhar na acolhedora escuridão. 

Era nesta hora, quando todos iam de encontro a Morfeu, que seu trabalho começava. Enquanto os corpos cansados repousavam, as mentes viajavam para um mundo muito, muito distante. E era neste mundo que ela ia fazer a coleta. Seu trabalho consistia unicamente em coletar e engarrafar sonhos. 

Sonhos eram coisas extraordinárias, histórias carregadas de emoções e sensações que após serem criadas e vividas uma única vez, eram desperdiçadas. Jogadas ao vento e esquecidas. Ela capturava estas histórias em pequenos frascos e vendia, permitindo que outras pessoas pudessem viver e sentir aquilo também. 

Os frascos eram todos do mesmo tamanho e cabiam na palma de sua mão. Dentro deles os sonhos eram apenas um pó fino como purpurina, dançando entre as paredes de vidro. Cada um de uma cor e densidade, mudando de acordo com a história que eles contavam. 

“Por que todos eles cabem em frascos de tamanhos iguais? Não deveriam existir sonhos maiores e menores?” - Ela perguntou para sua avó, quando os viu pela primeira vez.

"Os frascos são de tamanho único. Assim como os sonhos. O que faz deles menores ou maiores são as pessoas.”

Esta conversa sempre voltava a sua memória enquanto abordava os sonhadores. A maioria dos sonhos eram leves e descontraídos, como um livro de aventura infantil. Porém, existiam aqueles mais densos e pesados. Aquele tipo de sonho que grudava na alma da pessoa e drenava tudo que podia. Estes, ela não conseguia coletar. 

- E isto vale para os pesadelos também. - Repetiu para si mesma ao tampar os últimos frascos, arrumá-los na bolsa e fazer seu caminho para casa, acompanhada pelos primeiros raios do amanhecer.