quinta-feira, 20 de março de 2014

Cores (parte 1)

A praça estava deserta. A fonte em seu centro não jorrava água alguma. As pedras no pavimento estavam soltas, em alguns pontos era possível até ver a terra amarela que lhes servia de base. Os galhos desnudos das árvores balançavam raquíticos ao vento. A única coisa que se mexia com vida eram os capins amarelados.

Isso, e um garotinho.

Diferente do cenário que o envolvia, o garoto era uma explosão de cores. Calças azuis, camiseta vermelha, colete azul, boné roxo. Suas bochechas eram cheias e coradas, o cabelo ruivo quase encostava nos ombros. Ele estava sentado na beirada da fonte com os pés para dentro, batendo-os como se ali houvesse água.

Havia algo de familiar no rosto do garoto. O Rei olhou para suas roupas, tão coloridas quanto as da criança, mas muito mais surradas e sujas pela longa peregrinação em que se encontrava. Peregrinação esta que havia lhe mostrado muitas das estranhezas do mundo. Achava que estava começando a entender como ele funcionava, mas na cidade seguinte sempre era surpreendido por uma nova pergunta. Antes não se importava em responder a essas perguntas, mas agora... agora começava a suspeitar que o mais importante era tentar respondê-las.

A cidade em que se encontrava agora estava deserta, ressecada, quase morta, não fosse pelo garotinho na fonte. Tinha medo da pergunta que ele geraria. Tinha medo de que a resposta não lhe agradaria. Mas depois de tanto andar e de não encontrar a coroa que lhe traria o seu reino de volta, ele estava disposto a encarar os desafios que este mundo lhe apresentava.

Andou resoluto até o menino. Parou a seu lado. Ouviu-o murmurar baixinho uma canção. Mas não era uma canção de ninar - era um hino. O hino do seu antigo reino.

Reunindo sua coragem, conseguiu perguntar:

- Que terra é esta?

O menino não respondeu nada. Isso, de certa forma, ajudou a acalmar o Rei, e ele se inspirou a fazer mais perguntas.

- O que aconteceu nesta cidade? Onde está todo mundo?

- Você não sabe? - o garoto "respondeu", finalmente virando o rosto para o Rei.

- Não.

- Que pena, eu também não.

Depois de um tempo de silêncio, o Rei continuou com a indagação:

- Faz muito tempo que você está sozinho?

- Não. Faz alguns dias apenas que não vejo ninguém. Todos começaram a trocar suas roupas coloridas por roupas cinzentas como a sua e foram sumindo aos poucos.

- Minhas roupas são coloridas!

O menino olhou-o de cima a baixo.

- Não por muito tempo.

O Rei então percebeu o quanto suas roupas haviam desbotado na sua longa caminhada. Dificilmente alguém diria que aquelas eram as roupas de um rei. Não havia mais nenhum fio de ouro que brilhasse, nenhum adereço com o brasão da sua casa, e as listras estavam tão desbotadas que quase pareciam uma cor só. Ele estava agora da cor da estrada, da terra, do mundo. Se voltasse para seu reino, poderia ser confundido com um cidadão comum.

O garoto ficou sozinho uma vez mais. Até mesmo o visitante de roupas quase coloridas que chegara na cidade depois de todos os seus cidadãos haverem sumido saiu correndo para nunca mais voltar. A cidade seca e vazia tentava se disfarçar com as cores do mundo, mas alguma coisa afastava as pessoas dali. E o garoto continuava sozinho. Não importava quantas cores usasse, não conseguia guardar as pessoas para si por muito tempo. O máximo que conseguiu manter as pessoas naquela cidade foi por algumas gerações. Eventualmente, todos saíam para o mundo real. Suas ilusões não eram mais o suficiente, ou sequer necessárias.

Olhando para o céu e as nuvens de chuva que começavam a se formar sobre sua cabeça, o garoto cresceu. Sua forma agora era a de um rapaz jovem, mas de roupas sóbrias (apesar de ainda serem muito coloridas).

- Você ganhou a aposta - ele disse para a nuvem de chuva.

Um raio cortou o céu. Gotas grossas de chuva molharam o seu rosto ao mesmo tempo que o trovão chegava a seus ouvidos.

Descompasso. Assim era a verdade. Assim era a vida. E isso fazia mais sentido que as suas ilusões.