terça-feira, 18 de março de 2014

Masquerade

Os passos acompanhavam a música e se arrastavam pelo salão. Alternando os pares a cada refrão, as máscaras se cruzavam. Ao chegar ao novo parceiro elas se curvavam em uma rápida reverência e sorriam. A conversa fluía pelos rápidos segundos em que tinham contato e então mudavam de lugar novamente. Um rápido adeus e seus pés deslizavam em direção a próxima pessoa. Um novo par, uma nova máscara. E assim se seguiam os dias e noites.

Este baile não era uma ocasião única e especial. Ele era, na verdade, bastante corriqueiro. As pessoas não usavam longos e pomposos vestidos e ternos com bons cortes. Os trajes eram as roupas cotidianas: pijamas, blusas e jeans. O salão não era bem ornamentado e com chão de madeira polida. Ele era feito de cimento, asfalto, do piso comum dos escritórios e dos tapetes macios das casas. Os convidados não eram intimados a comparecer através de cartas seladas. Eles simplesmente existiam. 

O baile acontecia todos os dias, em todos os cantos. Começava precisamente quando os olhos se abriam junto aos primeiros raios de sol, ao despertar da consciência. A partir deste momento as máscaras eram colocadas. Estas sim eram feitas com esmero, com mais cuidado que em qualquer baile de pompa. Elas eram cuidadosamente moldadas para as diferentes danças e pares.

A hora de acabar nunca era marcada. Para alguns era quando se sentiam seguros em seus lares. Para outros quando achavam um par especial. Mas também existiam aqueles que nunca paravam de dançar. Continuavam sempre com seus passos precisos, cruzando o salão. Estes eram eternos mascarados temendo o dia que a música parasse de tocar. Temendo retirar a máscara e encontrar um rosto que já não existia ali.