terça-feira, 25 de março de 2014

O profeta daquela noite

Era com tremendo assombro que o rapazinho franzino observava o carro esmagado contra o poste a poucos metros dele. Ainda sentia o deslocamento de ar do veículo passando ao seu lado e se chocando com violência contra a estrutura vertical de concreto.

O motorista, após se desvencilhar do airbag, descia do carro cambaleante, talvez por embriaguez ou talvez por choque. O grande homem de cabelos negros deu dois passos e caiu, aparentemente ileso, exceto pelos arranhões recém-adquiridos por entregar o corpo ao asfalto com tanto afinco.

O rapazinho continuava imóvel, apenas observando de dentro de seus olhos arregalados. “Foi muito perto”, pensou para si.

Lembrava que mais cedo estava rindo de seu amigo no bar por uma conversa muito estranha. Dizia ele que adquiriu o dom da premonição. Dizia saber quando as pessoas morreriam. Em um acesso de raiva, após muito ouvir chacota de seus amigos, o auto-proclamado profeta do juízo divino indicou o franzino com um indicador trêmulo dizendo “e dessa mesa, você é o próximo a morrer”, quase em tom de ameaça.

O calafrio continuava a percorrer o corpo ossudo do garoto enquanto ele observava o homem caído no chão, aparentemente desmaiado. O poste, até então se movendo lenta e furtivamente, caiu por sobre o carro, passando a poucos centímetros de seu braço esquerdo.

“Foi muita sorte”, declarou horas depois o médico da ambulância chamada pelo rapazinho para atender o motorista. “O airbag absorveu todo o impacto, ele está intacto. E sorte do resto da cidade também, porque é um motorista bêbado a menos por hoje”.



Olhando para o teto de seu quarto, o rapazinho franzino repassava momentos de seu dia conforme tentava dormir. “Ele disse que eu seria o próximo” formulou mentalmente para si. “E foi muito perto” pensou com uma sensação de temor quase religioso.

O que diria a seus amigos? Passaria por supersticioso? “Foi uma coincidência, cara” dizia em sua imaginação um outro amigo seu de cabelo comprido. “Essas coisas acontecem”. O pretenso profeta, por outro lado, ecoava em chavões irritantes: “Eu disse que você era o próximo, você teve sorte. Seja mais sensato da próxima vez”.

No dia seguinte, porém, esqueceu o temor e guardou para si apenas a história de seu quase atropelamento. Seguiu sua rotina ao longo da semana e, na sexta feira seguinte, não tocou nenhuma vez no assunto das profecias de seu amigo maluco.