quarta-feira, 26 de março de 2014

O rio e o bardo

Poucas coisas refletem melhor o andamento de uma civilização do que a maneira que ela trata seu rio. Reverenciado como uma entidade, utilizado como recurso ou abandonado à própria sorte, ele mostra a faceta mais cristalina e desagradavelmente sincera do povo que construiu-se ao seu redor. Mais eficiente do que qualquer testemunho verbal.

Thomas teorizava para si mesmo descompromissadamente enquanto molhava os pés na água límpida e gélida de uma respeitável correnteza. Enquanto pensava, ajeitava sua cartola púrpura e os adereços nela como se estivesse em frente ao espelho do palácio de algum Industrial podre de rico - algo natural a se fazer, já que qualquer superfície reflexiva equivale a um espelho imperial para um bardo.

Não havia ninguém para discutir sua recém-nascida teoria naquele momento, mas lembrou-se de anotá-la em poucas palavras para comentar com sua irmã quando visitasse Londres de novo. Talvez criasse uma trova a esse respeito, para que não se tornasse uma discussão chata.

Se ele não acreditasse que qualquer assunto pode ser abordado amigavelmente através da música, não teria escolhido o caminho dos perdidos sem rotina, que a civilização na qual nascera insistia em segregar, embora não vivesse sem eles em suas festas mais pomposas. "O que é uma festa sem música?" Bradavam com tapinhas nas costas, seguido de um severo "entre pela porta dos fundos e fique longe da mesa".

Riu dos próprios devaneios, usando o verso do papel à mão para anotar imediatamente uma súbita conjunção de pensamentos.

Sem água no poço
e sem música na praça
as criaturas humanas ressecam
definham e encontram a morte.
Mas pergunte a eles se poupam
o rio dos dejetos
o bardo da fome
e zombarão sem piedade
dos pobres irmãos de má sorte.


"Ah, que horrível." Pensou Thomas. "Que tipo de poeta rima morte com sorte? Blake me amaldiçoaria."

E se pôs a tocar o acordeon para consolar-se do fracasso, sem tirar os pés da água. Tão chateado estava que nem percebia suas mãos negras e ágeis dando vida às notas com uma perícia digna de estontear qualquer salão da capital. Como não havia passantes que jogassem moedas e olhares, não poderia medir seu desempenho e dizer seu bordão de sempre: "Até que hoje não foi tão ruim." Só lhe restava tocar até se sentir menos triste, que é outro motivo fundamental para se fazer arte.

Mas a teoria não dava sossego aos seus pensamentos, como fazem certas ideias que parecem querer agarrar-se ao cérebro por ciúme ou medo da inexistência.

"Bem, esse rio parece estar com sorte. Perdido nesse bosque esquecido, não há fábricas e fumaça para contaminar sua liberdade, diferente do pobre Tâmisa. Como um veterano de guerra, ele não morre por seu país, mas desfigura-se por completo ainda vivo. Um rio curvado sob o progresso não é irmão apenas do bardo, mas também do ex-soldado louco sob a ponte."


Repentinamente, seus olhos brilharam como se risse de uma piada que só ele entendia.

"Na verdade, ele deve ser irmão de todas as pessoas de uma forma ou outra, percebam elas ou não."

Nesse momento, uma botina de operário esfarrapada cruzou a correnteza, boiando. Thomas esticou o pé rapidamente e a recolheu, jogando-a na mochila em um chute e desaparecendo entre as árvores logo em seguida.