quinta-feira, 6 de março de 2014

Pelos Sorrisos

Avistaram de longe um carrinho de sorvetes na esquina seguinte. A Menina começou a procurar loucamente por algo em sua mochila, mas logo ficou frustrada. Parou no meio do caminho para jogar todo o conteúdo no chão para procurar melhor. Enquanto isso, o Menino, que andava a seu lado, começou a suar frio.

- O que... o que você está procurando?

- Minha mesada! Eu podia jurar que ainda tinha... Será que deixei em casa?

- É, deve ter sido isso... Vamos lá buscar então.

A Menina continuou o caminho olhando para os pés, visivelmente chateada. Quando passaram pelo carrinho de sorvetes, ela lançou-lhe um olhar lânguido que apertou o coração do Menino. Ao atravessarem a rua, em vez de olhar para os lados, ela ficou olhando para trás. A essa altura, o rosto dele estava tão pálido que quase não se podia distinguir entre sua pele e a camiseta branca que usava.

- Você está bem? - a Menina perguntou.

- Si-sim! Estou ótimo! Nunca estive melhor! Eu... eu... eu me sinto péssimo! Por favor me perdoa!

Ele se jogou de joelhos na sua frente e ficou olhando para o chão. A Menina não estava entendendo nada, mas sabia que era algo sério, então deixou-o desabafar.

- Lembra de quando eu disse que gosto de dar presentes pras pessoas que eu gosto porque gosto de vê-las sorrir, mas não sabia fazer nada que os outros fossem achar legal? Você então disse que não importa se o presente é comprado, o que importa era o sentimento de quem o está dando. Você disse também que se eu precisasse de ajuda, eu podia pedir. Aí eu quis comprar uma coisa legal pra alguém, mas eu não podia pedir a sua ajuda senão você ia descobrir quem era, e isso ia estragar a surpresa. Então eu... eu... então eu pegueiseudinheirosemvocêsabereagoravocênãopodecomprarsorvete!

Quando olhou para o rosto da Menina, ela continuava sorrindo serenamente.

- Você... não está zangada?

- Não.

- É que... o presente... ele é... pra você!

Eles ficaram se olhando até que a Menina deu uma risadinha para quebrar o silêncio.

- Sabe, se você não me der o tal presente, eu não tenho como dizer se gostei ou não.

- Ah, é mesmo!

Ele tirou da mochila uma caixinha de papel amarrada com um laço de sisal e entregou-o à Menina com a mão trêmula.

- A caixa fui eu que fiz...

- Ficou bonita.

Ela desfez o laço com delicadeza, abrindo a tampa devagar. Quando viu o que havia dentro, seu rosto se iluminou com um sorriso de orelha a orelha, e ela se abaixou para dar um beijo na bochecha do Menino.

- Não precisava ter ficado tão nervoso. Eu adorei!

- Eu prometo que vou devolver todo o dinheiro, se você me der alguns dias.

Ele falou enquanto se levantava. A Menina colocou a pulseira, mas olhou-o então com um sorriso ameaçador.

- Se você me pagar de volta, eu tiro essa pulseira e nunca mais uso de novo.

- Mas eu... eu...

- Vem, vamos logo para casa.

Ela pegou o Menino pela mão e continuou puxando-o pelo caminho que estavam fazendo. Ele se sentia estranhamente bem, como se seu peito fosse feito de penas e as pernas não pesassem nada ao andar pela calçada. Sentia também que podia se acostumar com aquela mãozinha agarrada na sua. Não era nada ruim.

Quando estava se acostumando com a ideia, a Menina deu um sorriso maroto final.

- Mas você está em devendo um sorvete agora.