quinta-feira, 3 de abril de 2014

A insolência de um guerreiro

O guerreiro permanecia em pé e imóvel em frente ao altar dos deuses. Em seu corpo, a armadura passada para ele por seu pai e adaptada por seu tio refletia a luz colorida dos vitrais do templo, distorcida nos pontos onde o metal sofreu a punição mais pesada nos últimos combates. Em sua mão direita, pendia, com a ponta tocando o chão, a espada bastarda feita especialmente para ele para que fosse provado pelo divino. Em seu rosto, nada além de marcas de cortes e sujeira ornavam a visão desse bravo guerreiro.

O oráculo, até então ajoelhado em frente ao incensário, se levantou, virou-se para o guerreiro e as famílias que atrás dele aguardavam com ansiedade a resposta dos deuses, e, com os braços abertos para os céus, declamou:

“Assim decidiram os deuses! Você não foi escolhido para batalhar por essas terras, cavaleiro. Por sua atitude insolente e seu comportamento insubordinado ao templo, sua punição será se manter de fora das questões divinas e do combate que está por vir”.

Um instante de silêncio absoluto sucedeu à grave fala do sacerdote, lentamente sobreposto por murmúrios tímidos que começaram a se esboçar por todo o espaço do templo. O soldado, porém, mantinha sua postura intocável e seu olhar altivo, sem pestanejar.

“Que seus dias distante do combate lhe reavivem a lembrança de que os deuses não se agradam da falta de zelo pelo sagrado”, prosseguiu o oráculo em fortes brados, tendo como resposta o eco e murmúrios cada vez mais volumosos.

O guerreiro continuava a encará-lo, impassivo. Não havia lágrima, incerteza ou arrependimento em sua expressão, apenas um pequeno nuance de desgosto, logo sobreposto por um sorriso de canto de boca.

“O que é tão engraçado?” questionou o oráculo, não preparado para essa reação.

O homem rejeitado pelos deuses ergueu lentamente sua espada, arrancando centenas de exclamações e gritos impressionados pelo templo. O oráculo, imóvel e de olhos arregalados, observava atônito enquanto o cavaleiro lentamente conduzia a arma ao próprio ombro para apoiá-la.

“Então não há mais nada para mim aqui dentro” declarou ele antes de se virar e se dirigir à saída. As pessoas se afastavam em reverência temerosa para abrir caminho.

“É isso que você tem a dizer?” gritou o representante dos deuses de cima do altar. “Você dá as costas aos deuses mesmo depois de tal admoestação?”

Em meio ao seu caminho, o soldado se deixou interromper, desfazendo o próprio sorriso com um suspiro cansado. Sem se virar para trás, gritou para que todos, inclusive os deuses, pudessem ouvir: “Existe alguma chance das mentes dos deuses mudarem?”. O silêncio chocado foi sua única resposta. “Eles escolhem filhos de nobres para viverem das doações do povo simples e engordarem enquanto nada fazem além de lançar palavras vazias e queimar ervas, deixando ao povo o encargo de arar a terra e lutar pelo reino. Depois mandam esses mesmos... 'profetas' escolherem os soldados mais submissos e corajosos para satisfazerem suas vontades. Se as divindades não me querem abençoar para o combate, lutarei sem a bênção delas, pois não é para agradá-las que defendo minha vila”.

Olhares de admiração e olhares de desprezo o acompanharam quando ele voltou a andar até que estivesse fora do templo. Nenhuma palavra foi dita a ele, mas ele não se importou: continuou seu caminho até seu cavalo e foi para sua casa preparar suas malas para a guerra iminente.