segunda-feira, 7 de abril de 2014

Cores (parte 2)

O Rei correu como se fugisse de seus piores pesadelos – todos os trinta e sete juntos. Correu até não sentir mais as próprias pernas, até o amortecimento se transformar em dor, e continuou correndo além disso. Correu até o dia virar noite e o sol raiar novamente às suas costas. Quando sentia que estava prestes a desmaiar de exaustão, percebeu que estava na entrada de outra cidade.

À princípio pensou que estava salvo, mas a semelhança com a cidade da qual acabara de fugir lhe encheu de apreensão. O portal de entrada era exatamente igual e exibia a mesma mensagem de boas vindas que a outra. O pavimento da rua principal exibia padrões iguais aos da outra. Até mesmo o estilo das casas era idêntico. Certamente não podia ser a mesma cidade, pois correra em linha reta pela estrada sempre escolhendo as bifurcações que continuariam levando-o para longr daquele lugar amaldiçoado.

Depois de muito debater consigo mesmo, atribuindo ao cansaço aquela paranóia, entrou na cidade. Apesar de até a secura do ar e do chão serem parecidos, começou a reparar numa diferença fundamental entre aquela cidade e a anterior: as pessoas. Ali havia pessoas andando pelas ruas ou ocupadas com seus afazeres nas casas e lojas. Isso lhe trouxe enorme conforto, mas a falta de cores e água ainda o incomodava muito. Todo o ambiente era árido, as árvores secas, e as pessoas usavam roupas surradas e tão desbotadas que quase se confundiam com a terra.

Chegando à praça principal, um calafrio percorreu sua espinha. Percebeu que a cidade era realmente idêntica à outra em suas construções – tanto que não havia nem uma pedra ou banco ou estátua disposta de forma diferente na praça. E como na outra, havia uma criança sentada na beirada da fonte seca.

Porém, desta vez era uma menina.

O Rei se aproximou com cautela. Antes de dizer qualquer coisa, a garotinha se virou ao som de seus passos e disse:

- Você não é daqui. Veio para o casamento?

Mesmo receoso, o Rei devolveu a pergunta:

- Que casamento?

- O casamento de Coralina, oras! Não é por causa do casamento que está vestido assim?

O Rei olhou para suas roupas. Elas estavam bastante desbotadas por causa da sua longa caminhada em busca da sua coroa perdida, mas ainda exibiam resquícios das opulentas cores de outros tempos. Ainda assim, suas roupas eram mais coloridas que a de qualquer pessoa ali.

- Ora, não! Sempre me visto assim. Vocês não vestem cores nesta cidade?

- Nós costumávamos vestir, mas só quando morávamos na outra cidade. Desde que nos mudamos para cá, só vestimos cores em ocasiões especiais.

O Rei se lembrou imediatamente das palavras da outra criança na cidade da qual fugira: era tudo muito colorido lá, mas os habitantes começaram a usar cada vez menos cores e esvaziaram a cidade. Por isso a outra era uma cidade fantasma e a criança colorida estava sozinha lá. Todos os seus habitantes haviam fugido e acabado ali, na cidade nova e tão desbotada quando a anterior.

Agora que sabia para onde os habitantes da cidade fantasma haviam ido, ainda restava o mistério do por quê. O Rei tinha muito medo de perguntar, de tão assustadora que havia sido a sua experiência na cidade anterior, mas a sua curiosidade falou mais alto naquele momento.

- E por que vocês não usam cores aqui? Por que saíram da cidade onde tudo era sempre colorido?

- Ora, isso não é óbvio? Aquela cidade era uma mentira. Até uma criança sabe disso. A maior parte da vida é feita de rotinas, e as rotinas não são coloridas. Somente os momentos realmente especiais são vibrantes. Se tudo é colorido o tempo todo, então não existem momentos realmente especiais. Agora, se apenas alguns momentos são coloridos, eles se tornam marcantes, não acha? É uma ilusão pensar que tudo pode ser intenso o tempo todo. É exatamente a rotina, o comum, o dia a dia que torna o especial tão especial. E é isso que torna o comum especial também, à sua maneira.

- É por isso que todos vão vestir roupas coloridas para o casamento, mas no dia a dia usam as cores da terra?

- Exato!

O Rei olhou para seus trapos reais e, pela primeira vez em sua longa jornada, admirou o tom poeirento que eles haviam adquirido. Aquela cor desbotada era ação do tempo, de todos os dias que passou peregrinando pelas estradas de incontáveis países, pelas ruas de cidades desconhecidas e pela relva de territórios ainda não mapeados. Sob o sol e a lua andou, sob as estrelas dormiu assim como sob telhados e casas simples e estábulos. A cor que vestia agora era resultado de tudo que viu e sentiu, de tudo que disse e fez. Aquele agora era o seu dia-a-dia, aquela agora era sua rotina, e ela se revelava a seus olhos incrivelmente bela.

Então lembrou das cores faiscantes das gemas da sua coroa perdida e do reino que ela representava. Lembrou-se da cor do ouro lavrado, o qual nunca se dera o luxo de admirar ou sequer calcular o valor, mas que sempre era acompanhado pelo olhar da cobiça alheia. Todas essas cores reluziam em sua mente em oposição à cor que ele era agora.

Foi então que, naquela cidadezinha perdida nos mapas, o Rei entendeu o real significado das cores que um monarca vestia, do brilho de sua coroa e do símbolo que essas coisas tinham para o povo. O Rei entendeu o que ele era, e por que havia perdido sua coroa.

Agora, mais do que nunca, ele estava determinado a reavê-la, não importa o preço que custasse. Aquelas eram suas cores, sua coroa, seu reino, seu povo - e de ninguém mais.