terça-feira, 15 de abril de 2014

Cronometro

Não via nomes nem rostos. Por sua caminhada, tudo que enxergava eram vultos contra a névoa branca. Andava por entre eles e observava, este era seu trabalho. Observou um vulto passar correndo por ela e entrar em um carro. Outro mais a frente trabalhava em seu escritório. Logo em seguida passou por um casal discutindo: 

“Eu juro que foi a ultima vez” - As vozes ecoavam longe, abafadas rapidamente pela névoa ao seu redor. 

Todos os vultos nasciam pretos como carvão. Ao longo de sua vida eles clareavam até chegar a cor da névoa e então desapareciam. Alguns passavam por uma longa palheta de tons cinzentos. Outros mudavam de estágio bruscamente. 

A única coisa que os identificava era um pequeno relógio acoplado ao seu peito. Ele não era um relógio que responderia as horas. Ele responderia quanto tempo a pessoa ainda possuía. 

"Se é que alguém possui o tempo.” - Pensou.

Continuou caminhando pela multidão. Seus nomes não eram importantes para seu trabalho. Mas seus sentimentos sim. E estes estavam estampados em suas almas, como um rótulo em um supermercado. Todos os seus anseios, frustrações, alegrias e esperanças. Todos seus momentos ficavam registrados.

Ela escrevia as fichas. Narrava os fatos. Caminhava e observava os corações cheios de planos, vontades e sonhos, batendo ao ritmo do tic-tac do relógio. E os ponteiros se moviam, permeando a vida, levando o tempo e arrastando os dias. E no fim não sobrava nada além dos sonhos gastos. Nada além das desculpas para não realizá-los. Restaram planos fora do prazo de validade e corações cheio de culpas.

A vida passava. Seu trabalho era apenas observar. E ela sempre seguia em frente.