segunda-feira, 19 de maio de 2014

A Mesma História de Sempre

Pegou um livro para ler, o mesmo de outras tantas tardes. Aquele que ficava sempre no mesmo lugar da estante. As pontas amassadas e o amarelo das páginas não deixava espaço para dúvidas: era o mesmo livro que ela lia desde que era gartoinha.

Sabia-o de cor e salteado, de trás para frente, e podia até mesmo encenar as falas dos seus personagens favoritos. Em verdade, às vezes o fazia. De tantas vezes que o lera, aquele livro tornou-se tão familiar quanto um pai ou um irmão. Amava-o, e continuava se irritando com os mesmos trechos mesmo sabendo que eventualmente encontraria aquelas páginas em sua leitura. E no final, sempre reunia forças para perdoá-lo, e tudo acabava bem.

Mas hoje o livro lhe parecia um estranho. Abriu numa página aleatória e deixou as folhas seguintes correrem debaixo do dedão direito. Até seu toque parecia estranho. E era o mesmo livro de sempre.

"Talvez eu é que esteja estranha", pensou brevemente, mas logo deixou esse pensamento de lado. Começou a ler o livro, tentando se distrair, mas três páginas e uma xícara de chá depois já estava com ele fechado no colo, encarando a parede de forma vaga.

Hoje ela queria um final diferente. Sabia que as mesmas palavras só levariam ao mesmo desfecho. Hoje realmente havia algo diferente com ela, com o ar, com o futuro. Ela esperava algo mais.

Queria que a história fosse diferente.

Queria que sua história fosse diferente.

Daquele dia em diante, o livro permaneceu fechado no seu lugar de sempre na estante. E a moça nunca soube responder o porquê.