terça-feira, 27 de maio de 2014

Casulo

Conta a lenda que há muitos anos nasceu um rei bastante talentoso, destinado a um longo e próspero reinado. Uma de suas primeiras visitas foi o Tempo, com um longo manto azul e sua ampulheta dourada. Ele entregou dois presentes ao jovem: um punhado de areia que fariam todas as suas experiências se transformarem em pedras, que seriam a base de seu  futuro castelo, e um pequeno frasco com água, para um momento de emergência.  

O jovem rei cresceu feliz, como qualquer criança, mas seu verdadeiro potencial só deu as caras aos vinte anos, quando a coroa alcançou sua cabeça. Deslumbrado, tomou para si o mundo e tirou dele tudo o que pôde. Empenhou sua energia em novas conquistas, cresceu, conheceu e experimentou diversos sentimentos. Aprendeu um pouco de cada coisa e descobriu que era bom em muitas delas. Ele tinha o mundo aos seus pés e uma vida inteira a ser vivida. 

Passados alguns anos, ao sentir que estava envelhecendo, o rei construiu seu castelo, com as pedras que juntou através de todas as suas experiências. Resistente e imponente, ele era feito de suas conquistas e derrotas. Era feito de sua trajetória, de sua vida e dos caminhos que havia escolhido. 

Protegido por suas muralhas, descobriu que era mais confortável permanecer em seu trono, cercado por paredes. E de lá ele assistia ao mundo. Mundo este que nunca parou, nem para o reinado do jovem rei. E que era regido pelo tempo, assim como todas as outras coisas nele. E a areia do tempo só pára de cair uma vez para cada pessoa. 

E ele viu este tempo passar, viu sua vida estagnar e seus sonhos envelhecerem. Dentro de seu castelo ele se viu preso por suas conquistas, derrotas e pela direção que seus caminhos o haviam levado. Pelas grandes janelas ele assistia a vida passar. Sentia seus olhos pesarem, seus ossos cansarem e sua determinação desaparecer.

Cansado de tudo aquilo, e depois de anos de hesitação, o rei tomou sua decisão ao segurar o pequeno frasco entre as mãos novamente. Ele sabia o que aconteceria na hora que o quebrasse, mas não sentia medo. Na verdade sentia um frio na barriga que há muito tempo não experimentava. Segurou o precioso presente com força e então o jogou contra suas muralhas. 

O rei sempre fora muito talentoso, mas não era mais jovem. Não tinha mais a vitalidade e a força dos seus vinte anos. Ele assistiu a água escorrer pelas frestas, levando toda a areia de seus tijolos embora. Ele assistiu seu castelo desmoronar, e chorou ao sentir o mundo aos seus pés novamente.