quarta-feira, 14 de maio de 2014

Marcas

O viajante hesitou por alguns segundos antes de entrar na taverna. O local estava cheio e barulhento e o cheiro de cerveja e carne se misturavam ao da fuligem da lareira acesa. Era novembro e o inverno já começava a tomar forma. 

Acima de toda a algazarra havia uma voz feminina forte e imponente. Andando até o balcão ele logo descobriu de onde ela vinha. Uma mulher alta, com cabelos cor de fogo presos em um coque e olhos enfurecidos enchia canecos de cerveja enquanto limpava o balcão. Ele se sentou no canto mais afastado possível, mas não passou despercebido por ela. 

- O que você quer homem? Fale logo que não tenho o dia todo. 

Ele sequer havia se acomodado e acabou pedindo a primeira coisa que lhe veio a cabeça. Ela era linda, mas dava medo. Era uma beleza que podia ser apreciada apenas por alguns segundos. O tempo que os olhos sustentavam o olhar. 

Após alguns minutos um prato de sopa, um pão e um caneco cheio foram depositados a sua frente. Sem nenhuma palavra ela se virou e foi fazer outra coisa.

Ele segurou o prato pelas bordas e o mexeu lentamente, fazendo círculos perfeitos com o caldo espesso. Continuou a fazer isto enquanto pensava em tudo que já havia passado até ali. Não sabia se devia voltar, se tinha algo que valia a pena contar. Não sabia o que tinha feito com a sua vida até agora e se já não estava tarde demais para tentar fazer algo diferente. 

Parou de balançar o prato e alcançou a colher. Suas mão estavam calejadas e envelhecidas do tempo que havia passado fora. Mas quanto tempo era isso? Seu olhar vagueou. 

- Espero que não esteja chorando em cima da minha comida. 

Suspirou cansado e encarou as mãos calejadas por alguns segundos. Apesar do medo uma enxurrada de sentimentos se transformou em palavras sem ele sequer perceber.

- Na verdade não. Eu só estou cansado, sabe? Eu sou um viajante, e eu já vi e passei por tanta coisa. Mas tenho a impressão que tudo o que eu vivi tem menos importância do que deveria. As experiências que eu tenho possuem um valor menor do que as das outras pessoas. Parece que meus calos não dizem tanto quanto os dos outros e que minhas batalhas não importaram de verdade.

A mulher, impaciente, apenas encheu uma caneca com cerveja e depositou no canto com uma força inesperada. 

- E por que os calos e ferimentos das outras pessoas são mais importantes oras? A vida não é sua? Suas cicatrizes não contam a sua história? Ou você está vivendo a vida de mais alguém aqui? Alguém vai viver sua vida por você? Ou morrer? Eu é que não vou. 

Sem esperar resposta ela saiu bufando para tocar um grupo de moribundos dali. 

O viajante não trocou mais nenhuma palavra com a moça. Apenas terminou seu jantar e deixou algumas moedas no balcão. Quando abriu a porta e foi tomado pelo vento gelado se protegeu com as mãos e seguiu em direção a sua casa. Ao caminhar encarava os calos e pensava nas histórias que iria contar. Ele sorria.