segunda-feira, 5 de maio de 2014

No Deserto

"Você tem mesmo que ir?"

- Sim, tenho que ir.

"Mas você vai se perder sem mim" diziam seus olhos azuis profundos.

- Não vou, Shuei. Prometo.

"Tenho medo de não te ver novamente."

- Eu volto. Você vai ver. Antes que possa sentir minha falta, eu já estarei de volta.

"Já estou com saudades..."

Ele não respondeu. Nem na real despedida, nem enquanto revivia aquela lembrança. E por isso seu coração afundava de culpa.

Pela primeira vez em décadas, Shuei não poderia acompanhá-lo em sua jornada, e isso a assustava. Para falar a verdade, aquilo o assustava mais ainda, mas era exatamente a solidão que o instigava a fazer aquela viagem através do coração do deserto. Sem ninguém com quem conversar nas horas de descanso ou divagar durante a caminhada, sem nenhum conforto sobre o as areias escaldantes, sem nenhum porto seguro quando seus pés se cansassem. O desafio era a sua força motriz.

Mas a culpa o fazia arrastar os pés sobre a poeira amarela. Havia se despedido de Shuei no porto sem olhar para trás, sem admitir que sentiria sua falta por conta do orgulho. Mesmo depois de semanas, as palavras ainda lhe engasgavam na garganta. Ou talvez fosse apenas a falta de água - seu cantil estava vazio há dois dias.

Depois de mais um longo dia, ao entardecer ele procurou abrigo num conjunto de rochas que vagamente se assemelhavam a uma gruta, não fosse o teto de estrelas no lugar de pedra. Deitou e esperou o sono vir, enquanto seu estômago lhe fazia uma serenata. A comida também havia acabado, junto com sua última gota d'água. Estava começando a admitir que havia sido um tolo, pulando de cabeça naquela viagem sem um guia e sem preparação alguma. Mas o que mais lhe pesava a alma era não ter ninguém com quem conversar e rir da própria desgraça. Shuei nunca ria - era serena demais para isso -, mas sempre o fazia sorrir e ter esperança. Agora que estava perdido e sem sinal nenhum de civilização por perto para onde correr, o que ele mais precisava era um motivo para sorrir.

Interrompendo seus devaneios, algo fez a luz das estrelas apagar, apenas para reacendê-las segundos depois. O Viajante esfregou os olhos, incrédulo, e o fato aconteceu novamente. Ele se levantou e saiu correndo da gruta, olhando para o céu noturno. Foi então que ele viu, bem no alto, um fiapo de nuvem passeando calmamente sobre aquele deserto.

Seus lábios ressecados se esticaram debilmente, e ele falou, cheio de gratidão, sabendo que a nuvem o ouvia:

- Também senti saudades, Shuei.

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Nota da Autora:
Para aqueles que não conhecem Shuei, a personagem é a personificação da água e uma grande amiga do Viajante. Ela apareceu pela primeira vez no conto homônimo: "Shuei".