quinta-feira, 22 de maio de 2014

No Teatro

O auditório abafado não estava lotado, mas pelo menos metade dos assentos estavam ocupados. A maioria do público era composta por jovens universitários da rede pública, ou seja, bem vestidos e com tempo livre suficiente para assistir a uma peça de teatro no meio da semana, sem preocupações sobre como voltar para casa depois da meia-noite.

As luzes se apagam e o monólogo começa, texto melancólico e interpretação angustiada. Iluminação e produção profissionais não deixam dúvidas sobre a experiência da companhia de teatro responsável pela peça, que converge para o drama do personagem principal e a dor que seu amor não correspondido causa. 
As palmas e assovios ao final confirmam a aprovação quanto ao clímax do espetáculo, balbúrdia que torna imperceptível o único suspiro aborrecido vindo de uma poltrona no canto superior direito. Nele, uma moça ainda tentava entender o que havia de tão genial e emocionante na história de um cara de meia idade que não conseguiu esquecer a namoradinha do primeiro ano de faculdade.

"No meio de toda essa luz, fumaça e multimídia, eu não devo ter entendido direito a história."

Saindo discretamente, ela acende um cigarro na porta do teatro e caminha lentamente para casa, deixando para trás o público, os atores e os elogios daquele mundo flutuante.

"Ou então, estou velha demais para glorificar nostalgia."