quinta-feira, 1 de maio de 2014

Por elas...

“O dragão foi visto sobrevoando a cidade” disse o homem enquanto apertava as tiras de couro que firmavam o peitoral de sua armadura. “É meu dever ir até lá”.

A esposa, aos prantos, tentava dissuadi-lo. “Por que você deve ir? Eles conseguem sem você!”

Ele continuava olhando para o metal reluzente conforme a armadura era cuidadosamente ajustada ao corpo para manter a liberdade de movimento, embora o fizesse com pressa. Conforme ajustava a greva em sua panturrilha, parou para prestar atenção a uma antiga cicatriz de sua mão. As cicatrizes se acumulam, mas são como filhas; lembrava da história por trás de cada uma delas. Essa era particularmente boba, fruto de uma queda de seu cavalo em seus primeiros anos de treinamento.

Se tornara um cavaleiro ainda jovem, mas nunca precisou enfrentar um desafio dessa magnitude. Tivesse imaginado algo assim, não teria se casado. Não ousaria impor sobre outra pessoa tão imenso fardo de preocupação... era a culpa que lhe consumia o ar, o medo da morte em sua forma mais cruel: o medo de ser o culpado pelo sofrimento daqueles que o amam. Mas ele era irredutível, apesar dos próprios sentimentos: “É o meu dever”, disse, quase sem voz.

Colocou suas manoplas com cuidado, ouvindo os passos de cavalo se aproximando. Logo, a voz da capitã soou através da porta: “Ele foi visto novamente, se apresse!”

Não bastava ser um presságio de morte em forma de criatura mitológica alada que cospe fogo, tinha pressa. Não se contentava em assombrar os aldeões e colocar os cavaleiros para se apressarem com seu aço e seu bronze, precisava se fazer lembrar a cada dez minutos, cada aparição mais próxima da aldeia que a anterior.

Ajustada a armadura, prendeu à cintura a bainha já com a espada e pegou seu elmo. Olhou para sua esposa, a filha menor se achegando à perna para admirar o pai completamente equipado, totalmente inocente à realidade que tanto causava alarde nas ruas. “É por elas”, lembrou ele. “Não faz sentido me proteger no calor do meu lar se eu não puder erguer minha espada para protegê-las quando for necessário”.

Deu um beijo em sua esposa. Sempre saía com a consciência de que poderia não voltar; beijava sempre ciente de que poderia ser a última vez. Essa vez, porém, parecia diferente. Parecia haver alguma certeza, um silêncio mórbido em meio aos barulhos que vinham da rua que parecia afirmar que estaria montando seu cavalo para ir e não voltar.

Se ajoelhou e abraçou a filha pequena para sentir o cheiro de seu cabelo mais uma vez. Levantou-se e saiu sem dirigir para trás palavra ou olhar.

“É por elas”