quarta-feira, 7 de maio de 2014

Portinholas

Aquela era uma cidade desimportante, apesar de ocupar uma área maior do que a de uma capital mundial. Entretanto, pouco ou nada se ouvia a respeito dela nos grandes círculos e nos veículos de comunicação relevantes e por isso todos agiam como se ela não existisse, seguindo a etiqueta dos padrões vigentes.

Logo, as poucas pessoas de passagem - pois ninguém faria dela seu destino final - se impressionavam pelo simples fato de a cidade continuar existindo, de um jeito humilde e um pouco majestoso, como o olhar de um felino doméstico escondendo um invisível segredo entre as patas. Contudo, bastava um mínimo de atenção para notar as pistas e os detalhes que poderiam explicar essa sensação.

A cidade se estendia horizontalmente, sem alarde, multidões nem altos prédios, lotada de portinholas em todas as rústicas e lisas paredes de cores discretas. Estavam por toda parte, nem trancadas, nem abertas. Caso escancaradas por um visitante mais audacioso, eram geralmente seguidas por escadas simples ou corredores silenciosos, como se dissessem: "ainda não."

Mas ao final dessas intrigantes passagens, o mais ousado visitante provavelmente encontraria um grande salão rico em cores e lotado de atores encenando, filósofos filosofando ou poetas declamando. Ou talvez uma galeria sendo utilizada para apresentações de dança, balé em uma ponta e break em outra. Cada portinhola diferente trazia mundo novo e oculto da dormente superfície, sem letreiro luminoso, seta indicativa ou chamada de som.

E o viajante, estupefato, perguntaria:  

"Mas por que vocês escondem tudo isso?" 

Ao que um morador responderia, sincera e amigavelmente:

"Mas é só entrar, pois tudo está destrancado e disponível! Ou deveríamos jogar as pessoas portinhola adentro?"

E não seguraria o riso imaginando tal absurdo.