segunda-feira, 2 de junho de 2014

Não Escrito

Com as últimas palavras ainda ecoando em sua mente, o menino fechou o livro e largou-o delicadamente na grama. A última cena permanecia estática diante de seus olhos, mas um turbilhão de passados e futuros se misturavam em sua cabeça, esbarrando de quando em quando naquelas últimas palavras.

"- Encontremo-nos no futuro, pois é para isso que encontro meu fim."

E o soldado pulou. E só. Não havia outro capítulo, nem uma continuação. O clímax de história foi inundado de repente pela indignação do Menino. Era-lhe inadmissível que eles deixassem o final assim, com tanto a explicar, com tanto a ser dito, com tantas possibilidades não escritas.

- Posso pegar mo meu livro de volta, garoto? É a única cópia do mundo.

Um senhor de terno roxo e camisa amarela se abaixou ao lado do garoto, exibindo um sorriso torto por causa do cigarro e irônico por causa da expressão da criança. O Menino pegou o livro e o devolveu, mantendo a cara amarrada.

- Pode levar. Ele não tem um final muito bom. Nem é um final direito.

- Isso é pra você aprender a não "emprestar" os livros dos outros sem pedir antes. E também que cada um é o autor da sua própria história.

O estranho se despediu tocando a aba do chapéu e seguiu seu caminho carregando o grosso livro displicentemente debaixo do braço. Mesmo de longe era possível ler "Destino" em grandes letras douradas no couro escuro e batido da capa.