quarta-feira, 25 de junho de 2014

Troco

Os passeios de domingo sempre foram uma mistura de fobia, para aproveitar o que resta do fim de semana, e de depressão, ao perceber o que de fato resta dele. Não foi diferente aquele dia. O ar estava quente e abafado para o começo do inverno e a feira abarrotada de turistas empolgados, revezando entre comprar velas e incensos e virar uma cerveja gelada. 

Para os locais, como eu, a saída era se embrenhar entre as barracas e escorregar para as sombras dos parapeitos dos restaurantes, onde o caminho se tornava mais fresco e vazio. E foi ali, ao tomar minha rota de fuga favorita, que eu o achei. Sentado no meio-fio, com um rolo de arame na mão, tinha um senhor me olhando surpreso, como se não esperasse que alguém fosse parar ali. 

Meu primeiro impulso foi voltar para o desconforto da multidão e seguir despercebido. Tarde demais. 

- O senhor não tem uns trocados?

Automaticamente remexi no bolso e achei o troco do café da manhã que havia acabado de tomar.  Antes, porém, de retirar as moedas, uma certeza me invadiu: a conversa não seria breve. 

- Sabe. Não tenho muitas lembranças desta vida. 

- Eu tenho algumas moed…

- Mas tem algo que eu me lembro bem, sabe, rapaz?

Minha tentativa de encurtar a conversa não havia funcionado como eu esperava. 

- O que? - Perguntei. 

- O dia que eu morri.

Até hoje eu não sei se ele havia ensaiado esta história várias vezes e feito aquela pausa dramática de propósito. Mas meus dedos pararam de contar as moedas e esperei ansiosamente por suas próxima palavras. 

Que não vieram. 

- E o senhor morreu do que? - Incentivei. 

Ele me olhou como se eu fosse algum tipo de coisa incomoda que ele havia esquecido e retomou a história como se comentasse o que havia feito no dia anterior. 

- Ah, morri né. Eu morri aos pouquinhos, acho que esta é a pior forma de morrer, sabe? Dia a dia eu ia ficando desanimado, não sentia mais as coisas. Não sentia bem o gosto da comida, o toque da mulher e o sorriso do filho. As ideias que eu tinha quando tinha a sua idade, essas ideias loucas que vocês têm aí, pois bem, eu tinha muitas. Mas apaguei todas elas com o tempo. Eu fui sumindo. Esqueci quem eu era, não reconheci mais. Não achei mais a vida que larguei por aí. Fui morrendo. 

Deixando as palavras vagas no ar ele voltou ao arame e começou a moldá-lo Suas palavras haviam me deixado triste e reflexivo e acabaram se encaixando perfeitamente em mim. Ou eu me encaixei nelas. 

- Mas eu morri. E matei. 

Aquelas palavra me tiraram do transe. 

- Matou?

Novamente ele me lançou um olhar, agora de pena. Senti que ele me achava meio lento,  com dificuldade para entender as coisas, repetindo suas palavras sem chegar a conclusão nenhuma. 

- É né. Pra gente poder viver de novo tem que tirar o que tem aqui dentro. - E apontou para o próprio peito. - As vezes só ir colocando esparadrapo não adianta, jovem. Tem que começar tudo de novo. Do zero, sabe?

De alguma forma aquelas palavras me acertaram como um soco muito bem dado na boca do estômago. Daqueles que você vai lembrar pelo resto dos seus dias como sendo um sobrevivente. 

- Não quer comprar um porta incenso? Ele pode virar um porta retrato, enfeite e posso escrever seu nome nele também. 

- E quanto é?

- Quanto você achar que vale. 

Deixei o punhado de moedas que eu tinha no bolso e segui caminho envergonhado. Elas não pagavam a lição.