quarta-feira, 18 de junho de 2014

William Pennyworth Só Queria Uma Vida Tranquila

Conto publicado originalmente em Aneki's Corner, em 1 de novembro de 2013.

 A porta se abriu e uma figura alta adentrou silenciosamente o quarto, sua veste negra mesclando-se às sombras. A débil luz da lamparina tremulava ao lado da cama, onde uma pessoa roncava sofregamente. O visitante aproximou-se dela, observou-a por alguns instantes e pousou a mão sobre o seu pescoço...

– Parece que os batimentos cardíacos estão em ordem. – William pensou consigo mesmo, sorrindo para o pai adormecido. Ajeitou o travesseiro e cobertores com cuidado para que não despertasse e se pôs a recolher as garrafas vazias jogadas pelo quarto. Com pesar, percebia que elas só aumentavam dia após dia, assim como o odor de uísque e aguardente na casa. Se as coisas piorassem, poderiam se tornar irreversíveis...

– Apesar de que elas já o são. – completou os pensamentos em voz alta, consultando o relógio de bolso e verificando que a hora de seu próximo compromisso se aproximava. Seria uma noite tão decisiva quanto aquela em que encontrara o lorde negro, agarrando um filete da esperança que esvaía-se junto à pesada chuva.

Antes de sair, olhou mais uma vez para o velho senhor como se pedisse coragem e bênção, quase o garotinho que costumava buscar refúgio dos olhares reprovadores e dos ameaçadores monstros do armário. Mas talvez ele mesmo estivesse se tornando um dos monstros agora.

Eu vou matar um homem hoje, pai. – sussurrou, tendo consciência que o sono alcoólico o impediria de ouvir a dura confissão – Talvez eu não volte, e se voltar, não serei o mesmo. Mas não tenho escolha. Eu...

Calou-se. O velho senhor não deveria carregar mais esse fardo, mesmo inconscientemente. William só precisava ter em mente seus próprios motivos, e eles eram claros como um farol aceso no oceano noturno.

Apagou a lamparina, deixou um envelope sobre o criado-mudo e deslizou para fora do quarto. Não chovia, tampouco havia Lua ou nuvens para testemunharem o que viria a seguir.

"Olá pai. Como tem passado?

Os deveres na casa Nightray me impedem de estar com o senhor com mais frequência, mas pude passar aí rapidamente noite passada, durante uma breve viagem a serviço. Como era tarde da noite, o senhor já ressonava e não quis acordá-lo.

Fiz uma rápida limpeza, como pode perceber. Não fique magoado, é meu jeito. Mas pode brigar comigo da próxima vez que nos vermos.

O médico deve lhe fazer uma visita essa semana. Por favor, como seu filho, peço que siga as recomendações dele. Afinal, o senhor precisa estar saudável para passearmos em seu aniversário, não é mesmo?

Por enquanto me despeço.

Com amor,
William."

O veneno espalhou-se rapidamente, culminando em um infarto fulminante em pleno baile dançante. O copo de vinho que a vítima segurava espatifou-se, tingindo o tapete e a noite de vermelho vivo.