quinta-feira, 3 de julho de 2014

Formas de Amar

William fechou seu livro e levantou-se da poltrona, checando duas vezes se nenhuma ruga ou dobra escapara e se o marcador de página estava bem alinhado. Satisfeito, subiu três degraus da pequena escada da biblioteca para guardá-lo na estante, ouvindo a familiar voz de sua companheira quando já se preparava para descer.

- Will! Já que está aí, guarde esse para mim também! - na ponta dos pés, ela estendeu um livro de volume considerável para o rapaz, em cuja capa se lia, em letras rebuscadas, o título "Mecânica do Novo Século". - É na prateleira de cima.

- Claro, Grace. - ele recebeu o livro com expressão tranquila, estremecida assim que deu uma folheada casual nas páginas. Após um segundo de horror contido, uma tristeza conformada tomou o lugar do sorriso. - Por que você continua fazendo isso?

- Isso o quê? - ela retrucou melodiosamente, como uma criança plenamente consciente de sua travessura. Já perdera a conta de quantas conversas semelhantes tiveram, e não esperava que essa fosse a última.

- Você sabe. Toda essa maldade. - William mostrou a ela o livro aberto, apontando as anotações, palavras sublinhadas e diferentes cores de tinta em meio ao conteúdo original. Desde o primeiro momento em que o testemunhara, esse era um hábito incompreensível para o rapaz.

- Não é maldade, senhor. É amor. - disse sem um pingo de ironia - De que adianta algo passar pelas suas mãos e não levar nenhuma marca? É como se nunca o tivesse tocado! Como seus romances impecáveis, impossíveis de adivinhar se você já os leu ou não, e se os conhece tão bem quanto deveria.

- E amar não é também preservar? Admirar em sua forma mais pura, contemplar a simples existência. Não é preciso provar ou alterar nada nessa relação, ao menos não fisicamente. A mudança não é tangível, e apenas a alma sabe exatamente o caminho transcorrido.

A essa altura, os dois já se encontravam frente a frente, esforçando-se para não rirem da pequena discussão enquanto fitavam os olhos um do outro.

- Mas talvez, apenas talvez, você tenha um pouco de razão. - disse o casal em uníssono, unido em sua discordância.