segunda-feira, 28 de julho de 2014

Quem Você Vê?


"Hold it up sternly - see this it sends back, (who is it? is it you?)"
por Walt Whitman, 'A Hand-Mirror'

- Quem você vê?

Aquele era um espelho comum. A Artífice de Reflexos não havia colocado nenhuma magia sobre o objeto que trouxera até a Torre. Era apenas um pequeno espelho de mão, oval, sem adornos. Seu rosto jovem refletido revelava apenas isso: a aparência externa da Senhora. Ainda sem rugas que justificassem seu codinome, apenas uma alma invisível para sentir os anos que se passavam.

A pergunta permaneceu:

- Quem você vê?

- Eu.

- Você é você. Como pode estar vendo a si mesma se está olhando para um espelho? Está tudo invertido. Ainda acha que esta é você?

- Estou vendo uma imagem falsa e distorcida de mim mesma, então.

- Sim. E não. Não perguntei "o quê" você vê, mas sim "quem".

Era uma charada. A Artífice havia viajado até sua morada apenas para lhe propor um enigma. Às vezes se perguntava quanto tempo livre ela realmente tinha. Bem, sua tarde estava igualmente vazia até aquela visita inesperada, não lhe custava entrar nos jogos da amiga.

- Um reflexo é apenas uma imagem, não é real - respondeu, depois de pensar um pouco mais. - Logo, quem eu vejo é ninguém. Ninguém.

- Você está pensando com o seu cérebro de novo. Tente usá-lo para sentir agora. Quem você vê?

"Usar o cérebro para sentir" a Senhora pensou, "Quem eu não estou sentindo? O que eu não estou vendo?" Foi então que ela entendeu. Se ela não sentisse, seria impossível enxergar aquela pessoa. Se ela não sentisse, seria o mesmo que negar a existência àqueles a quem ela devia sua própria existência.

Acreditando que havia matado a charada, disse:

- Eu vejo a todos. Cada um. Todo par de olhos que já sondou os meus, todos os que não sondaram ou foram sondados. Cada coração que já bateu sobre esta terra e cada pé que um dia a percorrerá. Todas as mãos, entrelaçadas ou não, trabalhadoras ou não. Eu vejo a todos em mim. Eu sou todos.

Uma risada alta e rouca cortou o ar. A velha Artífice estava com um olhar sereno, mas um sorriso enérgico e solto.

- E eu pensei que era a única ficando gagá.