quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Caminhão de Gás

Tédio.

O calor, mais forte do que o normal para a estação, não colabora para amenizar a monotonia causada pelo tom de voz monótono do professor. Sentado em sua cadeira conquistada após anos de estudo e dedicação, só lhe resta ler com olhos baixos e fisionomia indiferente o texto de uma apostila desatualizada aos quase trinta alunos que lotam a sala.

Apáticos demais até para travessuras e pequenas anarquias, eles exercem seu direito de 'não-ser' e 'não-pensar', como se as palavras ditadas fossem um encantamento sombrio e eficaz que drenasse suas vontades.

Exceto por um deles que, apesar de imóvel como os outros, é denunciado pelo olhar fixo no relógio acima do quadro-negro vazio.

Ele é diferente. Ele espera algo.

O tagarelismo eterno do professor não o afeta, o calor é só um detalhe. Ele sua, porém vigia, atento a cada preguiçoso minuto que passa.

Cinco minutos.
Quatro.
Três.
Dois.
Um
.

Uma música suave entra pela única janela aberta, com se flutuasse de um lugar muito distante. A melodia de poucas notas se intensifica até chegar ao seu ponto máximo, fazendo o menino abrir um sorriso e discretamente tamborilar os dedos sobre a carteira.

Da mesma forma que se aproximou, a música se afasta alegremente até desaparecer por completo e em menos de um minuto a sala volta ao estado inicial. Mas o menino pode respirar aliviado e recostar-se na cadeira.

"Agora só falta uma hora e meia."