domingo, 10 de agosto de 2014

Nostalgia

Finalmente chegara o dia. Apenas uma vez por ano, esta era a regra. Segurou firme a mão dela e caminhou contido, com passos ponderados, segurando a vontade de correr. 

O portão velho e enferrujado do parque continuava o mesmo e, aparentemente, tudo ao redor também. Correu os olhos e devorou todos os detalhes, como se tentasse pregá-los na retina enquanto caminhava pelo chão batido. A sua frente a luz amarelada dos postezinhos acendia conforme a noite caia. E junto a elas, tudo ao redor ganhava vida. 

Ao passar pela tenda do tiro ao alvo encontrou um rapaz, alto, bonito e moreno. Sua voz falhava, como em um canal mal sintonizado. 

- Tente a sorte, acerte o alvo. Quem sabe você não leva o grande prêmio?

O rapaz acenou para o casal e eles retribuíram. Era Igor, seu melhor amigo na época da faculdade. Ele continuava igual aos seus vinte e quatro anos, a ultima vez que o vira. 

As demais tendas também exibiam rostos conhecidos. Sua tia, que morrera cinco anos atras, caminhava com um grande urso de pelúcia pelas ruelas e sorria para eles. Mais a frente, duas meninas faziam contorcionismo: Fran e Ale, suas duas namoradas mais importantes até aquele momento. Fran tinha quatorze e foi a primeira menina por quem ele se interessara. Ale era o amor dos seus trinta anos. As duas usavam roupas cinzas e se misturavam ao céu da noite. Quase não conseguia mais vê-las. 

Continuou caminhando e acenando, até que o vento gelado do inverno ficou morno e veio acompanhado de um aroma de caramelo quente. Ele não precisou procurar para saber de onde vinha. Junto a uma bancada de madeira cheia de maças do amor, estava uma senhora, de saia longa vermelha e blusa branca. A mais colorida de todas. Seu rosto continuava igual, assim como seu sorriso acolhedor.

- Estava com saudades, mãe. 

Ela sorriu, abraçou os dois e inclinou a cabeça em direção a grande roda gigante. Eles se despediram e caminharam até ela.

A mulher ao seu lado entrou e se acomodou em um dos bancos e ele sentou a sua frente. Em poucos segundos ouviram o barulho de engrenagens e começaram a subir. Aos poucos o parque ia se transformando em mar de luzinhas amarelas. 

- Eu te amei. - Ela falou, com a voz triste e distante. 

- Eu também. - A resposta veio pesada, dolorida. Olhou mais uma vez para o rosto da mulher a sua frente. Ela era linda. Desenhou seus traços mentalmente, tentando não esquecer nenhum detalhe. Ela estava partindo, foram casados por nove anos. 

Com um gesto silencioso suas mãos se tocaram e o rosto dela se transformou aos poucos em um borrão. 

- Eu vou lembrar de você. - Ele disse, antes de partir. 

Ele voltaria em um ano. Algumas pessoas ainda estariam ali, coloridas como nunca, carregando uma saudade sem fim. Outras estariam mais apagadas e as demais teriam se misturado com o cinza da noite, se perdendo para sempre em seu parque de memórias.