quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Simbiose

Os cadarços dos seus tênis resolveram passear enquanto ele andava. Eles tinham esse costume, o que era bastante inconveniente. O Menino já nem ficava bravo. Apenas se levantava, dava outro laço frouxo e seguia seu caminho.

Porém, quando levantou a cabeça desta vez, quase caiu sentado novamente. Não apenas as pessoas que andavam à sua volta haviam desaparecido como toda a cidade parecia estar abandonada há anos. A pintura das casas e comércios caía como se fossem cascas de banana; o revestimento dos prédios se despedaçava com a mais leve brisa; o asfalto, rachado, era tão ruim de andar quanto um terreno pedregoso. O mato tomava conta das rachaduras e até dos carros abandonados corroídos pela ferrugem.

O Menino gritou, chamando por alguém, qualquer um. Não houve resposta. Gritou mais uma vez, mais alto, mais desesperado, e começou a andar a esmo. Aquela cena da cidade deserta lhe era familiar, mas o sentimento era completamente diferente da primeira vez que a vira assim. Daquela vez, a cidade estava vazia, mas era bela, nova, vibrava com possibilidades. Agora tudo lhe parecia árido, esquecido, sem futuro. Essa não era a cidade na qual ele queria viver.

Quando a apreensão finalmente cedeu lugar para o medo, o Menino voltou correndo pelo caminho que o levara até ali na esperança de desfazer o feitiço ou o que quer que fosse que o tenha colocado naquele cenário. Correu tão rápido que seus olhos marejavam - se pelo vento ou pelo medo, não sabia dizer. Ele tropeçou nos escombros daquela cidade arruinada, levantou-se e continuou correndo sem enxergar nada envolta.

Depois do que lhe pareceram horas condensadas em minutos, ele finalmente parou para recuperar o fôlego, apoiando-se num muro mais ou menos da sua altura. Enxugando as lágrimas, viu que tudo havia voltado ao normal. Havia algumas pessoas na rua, apesar de aquela ser uma tranquila região residencial, e podia ouvir o barulho das televisões ligadas dentro das casas. O mundo simplesmente voltara ao normal depois de lhe dar um indiferente e cruel susto.

Um som baixo o tirou do seu estado apreensivo. Mais adiante no muro em que se apoiava havia um portão velho que rangia com o vento. Tomado pela curiosidade, o Menino resolveu espiar o que havia do outro lado, apesar de a adrenalina em seu corpo dizer que era melhor sair correndo como ele fizera agora há pouco. O portão reclamou alto com o seu toque, como esperado, e ele deu uma cautelosa espiada no terreno.

Como na visão, o mato alto tomava conta de cada rachadura e superfície em que podia se alojar. Algumas árvores raquíticas ajudavam a destruir o que restava do pavimento em volta dos equipamentos. Os balanços mal tinham acentos, as gangorras estavam quebradas no meio e o escorregador se enchera de limo. Mal conseguia ver os bancos escondidos na vegetação, camuflando-se nas margens do terreno. Era um parquinho abandonado, mas, diferente da sua visão, ele era real.

O Menino reconheceu o parquinho. Costumava brincar ali quando era muito pequeno. Lembrava-se muito bem daqueles brinquedos, dos tombos que levara, das brincadeiras de piratas com os amiguinhos, da primeira minhoca que comera (e que a mãe o fizera cuspir logo em seguida). Todas as suas lembranças daquele lugar pareciam tão distantes agora que via o parque naquele estado. Era quase como se o lugar na sua memória não fosse o mesmo que seus olhos viam.

Com essa sensação de melancolia finalmente entendeu o que sua visão tentara lhe avisar. As cidades eram como as pessoas, algo vasto e pulsante. Quando valorizada, a cidade pode ser um lugar maravilhoso, cheio de possibilidades e de vida. Quando tratada com descaso, tudo o que resta são espaços mortos e memórias. E até estas se perdem com o tempo.