quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Tesouro de Papel

O Rei cavava desesperadamente. Naquele bosque nos arredores de uma cidadezinha qualquer, a terra era úmida e macia, o que facilitava o trabalho de suas mãos. Parou por alguns segundos, enxugando o suor da testa enquanto contemplava o resultado. Já devia ter cavado fundo o suficiente. Botou as mãos sujas de terra nos bolsos, tirando deles o que restava da sua fortuna. Não podia arriscar-se a perdê-la em sua peregrinação, por isso esconderia tudo que lhe restava ali, até encontrar sua coroa perdida e poder voltar ao seu reino.

- O que está fazendo?

Uma voz infantil o surpreendeu, fazendo o Rei se virar assustado, as mãos sujas agarradas a dezenas de notas do dinheiro da sua terra. A dona da voz era apenas uma garotinha em roupas desbotadas e puídas, mas mesmo assim o Rei abraçou seu tesouro de forma protetora.

- Não é da sua conta - ele respondeu grosseiramente. A menina pareceu não se importar com o tom rude e se aproximou do buraco.

- Oh, você encontrou um tesouro! Você é um pirata, moço?

- Que absurdo! Eu, um pirata, imagine só... Eu sou um rei! Estou aqui escondendo meu tesouro de tais meliantes.

- Ah, entendi. - A Menina olhou para as notas nas mãos do Rei e claramente não reconheceu o papel-moeda estrangeiro, não conseguindo calcular o valor, mas sorriu mesmo assim. - Eu também tinha um tesouro de papel. É o melhor tipo.

- Tinha? - o Rei ficou preocupado. - Quer dizer que esta é uma região perigosa? Há meliantes por perto?!

- Não, claro que não - a garota riu. - É que no ano passado, num dia de muita chuva, o rio que corta a cidade inundou várias casas, e a minha foi uma delas. Todo o meu tesouro molhou e se desmanchou. Mas sabe, tesouros de papel são na verdade indestrutíveis. Todas as histórias que eu li continuavam na minha cabeça, e eu passei elas adiante pro meu irmãozinho, que ainda não sabe ler. Ele ficou com medo de chuva depois que perdemos nossa casa e tivemos que morar com a tia, então eu comecei a contar as histórias pra ele ficar mais calmo. Foi assim que eu percebi o valor que os tesouros de papel tem de verdade. Não é só o que está escrito neles o que conta, mas sim o que você faz pelas outras pessoas com o que está escrito. - Depois de uma pausa pensativa, a Menina acrescentou: - Pelo menos é o que eu acho. Isso faz algum sentido para o senhor?

O Rei não respondeu, pois também se encontrava emboscado por reflexões que nunca antes haviam se esgueirado para cima dele. Olhou para as notas sujas de barro em suas mãos, e elas lhe parecerem um simples maço de papéis em branco, sem valor. Aquela garotinha era muito mais rica que ele, mesmo tendo perdido seus papéis.

Talvez se arrependesse depois, pois não costumava seguir seus instintos com muita frequência, mas naquele momento teve o impulso de colocar todo seu tesouro nas mãos da Menina. E foi o que fez.

- Divida isso com todas as pessoas que perderam suas casas. Talvez seja o suficiente para recuperar alguns lares.

E sem esperar a reação da Menina, deu as costas e se afastou do buraco mesquinho que cavara para seu tesouro.

Enquanto caminhava, tentava lembrar-se do que fizera com seu tesouro até então, mas tudo que lhe vinha na cabeça era um completo branco. Não conseguia se lembrar das roupas que comprara, dos banquetes que bancara, dos palácios que construíra. Todas as lembranças eram vazias, exceto pela Menina.