segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Guerra

Ela atendia o telefone como se esperasse por más notícias.

A voz brusca ao dizer alô, aliviada em um segundo ao saber que o telefonema era apenas o aviso de uma passada rápida no mercado.

O suspiro aliviado quando a família chegava em casa, como se as chances de virar notícia no jornal, estatística, memória traumática fossem maiores do que cumprir a rotina casa-trabalho-casa.

Claro, "esse tipo" de coisa acontece todos os dias.

Não vivemos em um mundo seguro.

Mas até que ponto essa insegurança toda é legítima e racional?

E a tensão se estende por anos a fio, sem nenhum empecilho, acidente ou fatalidade que justifique o espírito em suspenso, pronto para ser despedaçado como se uma lâmina lhe apertasse a garganta.

"Pode acontecer a qualquer momento!"

O que, exatamente?
 (enfim, a pergunta.)

(A resposta se resume a um olhar grave, silencioso, seguido de apenas uma palavra.)

"Tudo!"

Talvez essa incerteza, esse inimigo invisível espreitando nas sombras, fosse o fator mais aterrorizante: a consciência de se viver uma guerra não declarada, onde as bombas, lâminas e rajadas não são contabilizadas e as autoridades insistem em repetir diariamente: "Estamos bem! Temos paz! Somos uma sociedade civilizada."

É muito fácil se esquecer da proeza que é superar, intacto ou quase isso, um dia depois do outro.

Na verdade, muitas vezes não existe outra opção para nos mantermos em linha.

Estamos bem.

Temos paz.

Somos uma sociedade civilizada.


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