segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Linhas

As mãos úmidas e hesitantes seguravam o convite atrás das costas, como se estivesse incerto sobre seguir em frente. A sua frente uma porta apoiada por paredes invisíveis e uma pequena placa davam nome ao seu destino. 

Casa da Encruzilhada
Apenas convidados 

Não sabia como chegara até ali, mas o convite carregava seu nome, data e a hora. O lugar era inóspito, um grande deserto mergulhado no céu da noite. Sob seus pés havia uma fina poeira dourada que se espalhava pela distância que seus olhos alcançavam e sua cabeça poderia imaginar. Apesar de ser um deserto, não sentia calor ou frio. A única coisa que sentia eram as entranhas remexendo de forma ansiosa. 

Passou algum tempo observando os pequenos redemoinhos que se formavam ocasionalmente, carregando a poeira em uma dança lenta e ondulante até sumir sob os céus. Então desviou o olhar para a outra única coisa que fazia sentido ali: a grande porta de madeira. 

Fechou os olhos de forma dolorosa para que não abrissem de jeito nenhum e passou por ela. 

Depois de alguns segundos sem sentir nada abriu-os novamente e segurou a respiração. O lugar parecia o mesmo de antes, porém cheio de pessoas. Ou quase. 

Coçou os olhos e se perguntou se de alguma forma não os tinha machucado. As pessoas que estavam ali não pareciam reais. Através delas conseguia ver a imensidão do deserto ao seu redor. Ele sabia que as conhecia, mas não conseguia distinguir seus rostos, eles lembravam uma daquelas imagens com sintonia ruim na televisão. 

Continuou caminhando até encontrar dois homens parados próximos a uma segunda porta. Eles, ao contrário das silhuetas, pareciam reais. 

Os dois estavam alheios a sua presença até ele soltar um pigarro e chamar sua atenção.

- Você já decidiu o que vai fazer? - O primeiro deles se dirigiu ao recém chegado. 

Como se soubesse sobre o que se tratava, a resposta dele veio sem titubear:

- Eu vou embora. Decidi pegar o avião amanhã. 

- Você tem certeza disso?

- Sim. 

O segundo homem acenou e abriu um pergaminho. O papel amarelo possuía apenas uma grande linha, a qual sua mão percorreu até alcançar o final. Lá havia uma pequena bifurcação apontando em varias direções. Ele escolheu a terceira no sentido horário continuando o traço da linha, até então interrompido. 

A medida que a caneta ia tingindo a folha, algumas das pessoas se mexiam e com um rápido aceno, como quem termina uma dança, se despedem. Elas passam pela mesma porta que ele entrou e a medida que saem, novas vão entrando e tomando seus lugares. 

O homem desenhou por mais algum tempo e então fechou o pergaminho. O rapaz entende que já terminou o que tinha para fazer ali e se despede, seguindo pela porta oposta a que entrou, levando consigo todos que estavam ali. 

- Eu sempre me pergunto se as pessoas tomariam as decisões se soubessem o que estão perdendo ou ganhando com elas. - Falou o homem com o pergaminho enquanto observava as ultimas pessoas deixarem a sala. 

- Acho que aí está a graça dessa coisa que eles chamam de vida. Sempre jogar as cegas nesta roleta de escolhas. - Respondeu o outro. 

- E você acha que a chance de arrependimento é maior?

- Isso eu não sei. Apesar de eu ser o anfitrião, quem paga a conta é sempre o convidado.